Não vou escrever uma linha sobre o que está acontecendo na Faixa de Gaza da mesma maneira que não escrevi nada sobre as enchentes em Santa Catarina. Sobre este último, confesso que fiquei me coçando, mas resisti. Sem dúvida que todo o sofrimento das famílias desabrigadas, os mortos e desaparecidos me comoveram. Porém,
confesso que, sendo nordestina, já vi sofrimento demais, catástrofes demais, miséria demais causados pela
natureza.
Aqui em Pernambuco, a exemplo do Nordeste inteiro, não ter o que comer, o que vestir, não ter água potável, ou melhor, não ter água nenhuma é coisa rotineira. Mães e pais vendo seus filhos morrerem aos poucos, à míngua, faz parte de um cenário de anos e anos a fio. Virou a epidemia da miséria. E de uma miséria que é capitalizada como estava sendo a da tragédia de Santa Catarina.
E, honestamente, não posso dizer que me comovi de ficar aos prantos, deprimida, como li que muitas pessoas ficaram. Claro que me angustiou profundamente ver na TV pessoas sofrendo por suas perdas familiares e materiais, mas, como disse, ser nordestino, mesmo não fazendo parte da grande população que vive na miséria, já é o suficiente para ter calos na alma. O que não quer dizer indiferença. Talvez revolta caiba mais. Pode ser medíocre, pode ser mesquinho da minha parte, mas pensei que talvez grande parte dessa sensibilização nacional tenha se dado porque o infeliz na tela da TV era louro de olhos claros, gente que nós não estavamos acostumados a ver em condições sub-humanas. Porque já virou praxe ver uma mulher negra ou cabocla, nordestina, esquálida, com um bebê igualmente cadavérico na teta, cercada por mais meia dúzia de filhos, falando em falta d'água, com as panelas de alumínio no fogão completamente vazias, não é verdade? Cadê a comoção? A mobilização? E isso acontece todo dia, meus caros, toda hora. Quem lembra? Onde estão os grupos organizados? Onde estão as ONGs? Cadê os selinhos nos blogs pedindo ajuda, doação?
Já sobre Gaza não falo porque me dói. Tenho evitado ler e ver as imagens. Especialmente das crianças e velhos, que são o meu ponto nevrálgico. Sinceramente, não vejo solução próxima para um conflito que vem endurecendo nos últimos sessenta anos. Índole belicosa de ambos os lados, fanatismo religioso, ódio, interesses conflituosos e oportunismo são peças muito difíceis de serem equacionadas. Nossa razão ocidental tenta dar conta disso ditando receitas para uma paz que talvez nunca seja alcançada. Infelizmente muitas histórias não têm final feliz e nem sempre o bem e o mal podem ser tão cartesianamente delimitados. E ninguém é santo naquele balaio de gatos.
De uns tempos para cá, decidi que não vou me fragilizar por livre e espontânea vontade. Já sofri muito por causa dessa minha natureza de
antena parabólica. Preciso de lucidez para cuidar da minha filha, de mim e de quem me cerca. Não posso mudar o mundo e nem quero, pois tampouco tenho certeza de que as minhas decisões
seriam as mais acertadas. Podem chamar isso de omissão e falta de engajamento. Podem me acusar de estar em cima do muro. Mas a maioria que pensa assim está fazendo algo concreto para ajudar além de teses revoltadas ou comoventes? Desde quando reproduzir fotos sangrentas da Reuters resolve o assunto? Pois em meio a essa loucura toda, eu opto por sobreviver.