terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Sustos
Nasci e o mundo aqui fora me causou estranheza: vozes difusas, luzes às quais meus olhos não estavam acostumados, mãos que me pegavam e cuidavam, mas que também me despertavam do sono. E eu, assustada, não sabia que isso era o começo de tudo. Só pude chorar.
Fui crescendo e alguns abris se passaram. E continuei me assustando porque, criança, não entendia as palavras e olhares velados que as pessoas usavam para dissimular mistérios que eu tão cedo desvendaria. Não chorei porque tinha o coração ainda intocado pela dor que mais tarde faria romper as comportas do meu peito e desaguar, como quem precisa matar a sede do mundo todo.
Mais dias e noites se passaram e mais sustos vieram: olhei no espelho e vi um corpo desconhecido, que mudara sem que eu me desse conta. Conheci e guardei segredos também, meus e alheios. E não chorei. Finquei os pés no chão, achando que olhar o mundo com certa petulância me livraria de sobressaltos. E chorava escondido, de noite, abafando os soluços no travesseiro. E adormecia quase sempre exausta. Noites e noites se passaram. E dias e mais dias vieram. Outros sustos, perplexidade e mais nada. Durante anos, o choro deu lugar à raiva, ao ressentimento e à dureza. E mesmo ainda apavorada com a crueldade que eu julgava impossível, ainda tendo, depois de tantos anos, uma certa falta de malícia para as coisas mais óbvias, travei o choro.
Aí um dia saiu de mim um choro que não era meu e eu decidi amenizar seus sustos, ser seu cão de guarda. E mesmo sendo inevitável o assombro diante de tudo, tratei de fechar a porta da rua, proteger seu corpo, alimentando e aquecendo-o do frio, das dores e dos pequenos desencantos. E, sim, coloquei as mais belas flores no seu cabelo, que crescia em ondas de mar calmo. Em troca, ela me ensina que devo deixá-la ir, um pouco a cada dia, abraçar o mundo. E mesmo sabendo que eu não devo fazer absolutamente nada para impedi-la, bate no peito, às vezes e quando a noite é bem alta, uma vontade imensa de lhe pedir que não vá. Mas eu sei que não devo e aceito isso. Por mais que eu sempre me assuste, ela desatou os nós do meu peito e agora eu consigo chorar.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Enquete Betty Faria
Na próxima quinta-feira, Betty trará um bofe que é escândalo, poder, causação, luxúria e glória. Aguardem de leques e ansiolíticos na mão.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Gente estúpida

Falando no Rio de Janeiro, a estátua de Carlos Drummond de Andrade, que fica no calçadão de Copacabana, foi vandalizada novamente. Perdi a conta de quantas vezes a situação já se repetiu. Acho que a solução seria apelar para a licença poética e colocar lentes de contato no coitado. Só fazendo piada mesmo... Mas é vergonhoso. Será que se no lugar de Drummond fosse colocado o busto, ou melhor, a bunda da Mulher Melancia, o vandalismo seria o mesmo? Porque num país onde poucas pessoas sabem quem foi o Poeta e a sua importância para a nossa literatura, mas consideram a mulher-mondrongo o ícone da brasilidade, tudo é possível.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Qualquer maneira de amor vale amar
Eu não sou contra o amor de pessoas com grande diferença de idade entre elas. Da mesma forma, nada tenho contra o amor e a união entre pessoas do mesmo sexo. Eu não sou contra o amor, ora bolas. Porque com ele, mesmo que não dure para sempre, é a única maneira de se sentir realmente vivo. Qualquer forma de amor.
Queria deixar isso claro porque, quando posto alguma coisa envolvendo a situação de uma mulher mais velha que foi traída e humilhada publicamente por um marido mais jovem, não estou me posicionando contrariamente à relação em si. Não me passa pela cabeça que essa mulher deveria procurar um homem da sua idade ou que ela deveria conhecer seu lugar de velha. Jamais. Ela é jovem e se sente jovem, que mal há nisso? O ideal para ela seria arrumar um homem de 70 anos? Ah, mas e se fosse um homem de sessenta com uma moça de 30 e poucos estaria tudo bem? Machismo puro. O que acho fundamental, em qualquer fase da vida, é estar cercada de pessoas de bom caráter, qualquer que seja o tipo de relacionamento. Carência nenhuma justifica colocar o(a) primeiro(a) vigarista que se vê pela frente na nossa vida de mala e cuia. Foi atração? Quer sexo? Perfeito, vá em frente. Mas se espera de alguém com vivência e maturidade pelo menos alguma lucidez nas escolhas pessoais.
Porque chega uma hora em que, por mais que você saiba que as coisas do coração são meio incontroláveis, os calos adquiridos ao longo da vida deveriam mostrar que certas situações não compensam o risco, não valem à pena. Ou até valem desde que a cabeça continue suficientemente lúcida para dizer até onde se deve ir. Infelizmente, não se pode ter tudo e ainda sair sem nenhum arranhão de muitas situações ao longo da vida. E saber lidar com as frustrações decorrentes dessa constatação é um desafio que não acaba nunca.
Mas se o negócio for fazer o que der na telha, tudo bem. É uma escolha. É um ato de rebeldia e coragem. Só não venha depois dar uma de vítima. Banque a sua aposta de cabeça erguida e saia da mesma forma, mesmo que tenha dado com os burros n'água. Assim tem todo o meu respeito.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Momento Lavagem do Bonfim

Depois que o falecido esfriou no túmulo, Senhora do Destino botou a boca no trombone. Disse que Cafuçu filmou-a no banho, de touca e lavando as partes íntimas. Com isso iria chantageá-la: caso não lhe desse 500 mil reais, o vídeo seria publicado. Pergunto eu: alguém tem interesse em ver Maria do Carmo fazendo banho de assento? Realmente, o forte de Cafuçu não era a inteligência.
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