quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pequeno farnel de uma expatriada



Minha sogra chegou ontem do Brasil e trouxe algumas coisinhas que encomendamos.



Tirando a Farinha Láctea e as goiabinhas de Mariana, como boa nordestina que sou, não poderia deixar de pedir farinha de mandioca porque, convenhamos, feijão e arroz sem farinha não têm o mesmo gosto! Nosso tradicionalíssimo e pernambucano bolo de rolo (que não tem nada a ver com rocambole, diga-se), cocada de coco queimado, recheada com leite condensado e um pouco de mel de engenho -- e não deixar as cocadas enjoativas é uma ciência que eu jamais alcançarei... Ah, vocês sabiam que a Holanda importa mel de engenho brasileiro? E, finalmente, a goma de tapioca. Sim, porque neste outono, eu decidi comer algo diferente...

Cocada matadora:




Bolo de rolo da Casa dos Frios, o mais gostoso ever! E a bandeirinha de PE atesta a fama e dá saudade :)



Muitas tapiocas, pena que não vai dar pra fazer a minha favorita, que é com queijo de coalho, coco e manteiga, mas hei de arrumar algum substituto (achei um queijo de cabra por aqui que dá pra enganar...):




Agora é só continuar a correr porque essas coisinhas engordam que é uma beleza.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Klassendienst



Esta semana, Mariana e outro colega de classe estão encarregados do Klassendienst (numa tradução livre, limpeza e arrumação das classes), que consiste no seguinte: no final de todos os dias da semana, eles varrem o chão da classe deles, colocam água nas plantas, apagam o quadro, colocam as cadeiras sobre as mesas etc.



Particularmente, acho a prática muito bacana, pois além de incentivar o trabalho em equipe, vai criando nas crianças, desde bem cedo, o senso de responsabilidade, coletividade etc. Sem contar que, como aqui não tem a boquinha de se ter alguém para fazer as tarefas domésticas e todo mundo bota a mão na massa em casa, a criança começa a se preparar para o dia em que ela será responsável por si mesma.

Quando saímos do Brasil, Mariana tinha 6 anos e 11 meses e eu precisei treiná-la, ainda lá, para muitas coisas, as quais eu, Paul ou nossa fiel escudeira Luzia fazíamos para ela: amarrar os tênis, escovar os dentes, fazer sua higiene após uso do toilet, trocar de roupa, pentear-se etc., porque sabíamos que aqui uma criança de quase 7 anos não saber fazer essas coisas é motivo para sair em manchete no De Telegraaf.

Não que Mariana fosse uma menina mimada, nesse aspecto e na região em que morávamos, ela não era exceção: as crianças (especialmente os meninos...) são meio que tratados como reizinhos. Sempre há muita gente ao redor disposta a ajudar e isso vai aparentemente facilitando as coisas. Daí, quando essas criaturas crescem e precisam se virar, sofrem bem mais. Claro que hoje em dia as coisas estão mudando, mas, no geral, é assim mesmo que a banda toca.

O que eu sei é que essas mudanças deixaram Mariana bem mais independente e hoje, contabilizando este 1 ano fora do Brasil, sua evolução foi fantástica! Além dos cuidados consigo mesma, ela arruma sua cama (e a nossa, se eu explorar pedir), põe e tira a mesa, arruma a sala -- e aí a briga começa porque ela quer deixar as coisas do jeito dela --, faz os seus pannenkoeken (se acha a cozinheira...) etc.

No entanto, é só ficar doente, como ficou nas férias de outono, que a manha volta em todo seu esplendor: quer comidinha na boca, sapato amarrado (tendo ela apenas o trabalho de esticar as pernas) e coisa e tal... Agora é tirar os velhos maus costumes e dar um sossego pros dois Zwarte Pieten: eu e o pai.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre tudo ou sobre nada




Às vezes penso que o Facebook tira minha vontade de escrever. Não que lá eu escreva demais. No entanto, o gosto por escrever se dilui, talvez pelo simples fato de lá haver mais feedback, sei lá. Além do mais, não tenho mais aquela energia que tinha de escrever aqui, nas velhas e boas listas de discussão do Yahoo e ainda manter um fluxo considerável de e-mails pessoais, estou cansada das virtualidades, acho. Também porque eu, pessoa prolixa que sou, muitas vezes não me contento em não ir fundo naquilo que escrevo e, ultimamente, a vida, muito mais que as palavras, as quais são a sua elaboração, tem me imposto esse ônus, aí eu penso: já deu por hoje, né? A verdade é que estou num momento mais para dentro, naquele processo de plantar para colher não sei quando e imprecisão não é palavra das mais palatáveis.

Ontem, faleceu uma tia minha, irmã do meu pai, de quem fui muito próxima quando criança e pré-adolescente. Faleceu na madrugada (horário do Brasil), depois de um tempo internada, oscilando entre saídas e voltas para a UTI. Uma morte já anunciada, mas mesmo assim sentida por todos nós. Aí voltam as lembranças, a impossibilidade de estar com a família. E eu compartilhei com a minha filha todas as boas lembranças porque ela conheceu a tia já vitimada pelo Alzheimer, desmemoriada, e eu quis lhe dizer que nem sempre ela havia sido assim. No final, Mariana achou uma pena não tê-la conhecido como eu. É sempre uma pena não viver. Ou viver demais.

Pelo fato de ter saído da tutela familiar aos 20 anos (fui morar em Belém e de lá, ganhei o mundo), perdi diversos familiares estando ausente e isso vai calejando um pouco, mas sempre fica a sensação de estar no meio do nada, deixando escapar entre os dedos os fios que formam essa teia invisível de sentimentos, que são a substância da qual somos feitos. De qualquer forma, seguimos acumulando não ausências, mas lembranças e reconciliações, a história que contaremos aos nossos filhos e eles, aos nossos netos. A vida em sua aterradora simplicidade.



quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Uitstroom





Eu xinguei, me aborreci, esculhambei a vizinhança, mas eis que está chegando o dia e estou aqui triste, dividindo com Mariana este sentimento de vazio e de quase saudade: amanhã é o Uitstroom dela da escola de estrangeiros.

Para quem não conhece o idioma, o substantivo stroom quer dizer correnteza e a preposição uit, fora. Simples, na bucha, essa língua sem muitos rapapés. No entanto, a metáfora não deixa de ser bonita (e melancólica): Maricotinha está saindo da correnteza, do sistema que diz que ela, mesmo com dupla nacionalidade, mas pelo fato de ter nascido e crescido fora daqui, precisou entrar no sistema educacional holandês por esse atalho, que é a escola para estrangeiros. E amanhã, ela será devolvida à escola normal.

É claro que estou explodindo de orgulho porque o curso tem duração de 1 ano e seis meses, e a danada concluiu em menos de um ano -- ela entrou depois das férias de outono do ano passado e está saindo amanhã, véspera das mesmas (herfstvakantie). E concluiu falando, lendo e escrevendo em holandês com desenvoltura, tanto que na escola permanente, daqui da nossa cidade, ela está no grupo 5, que é o compatível com a sua idade. Ai, como eu tô coruja!!

Também me sinto aliviada porque era osso pegar Mariana todo dia em Amsterdam, debaixo de chuva, neve e o escambau. Parar tudo que estava fazendo e seguir pra lá, que é perto, 20 minutos, mas precisando pegar transporte público e coisa e tal, contando ida e volta (a espera na porta da escola incluída nessa conta...), não deixava de ser quase 2 horas por dia em que eu poderia fazer outras coisas. Enfim, acabou.

E pra ela concluir esse período, trabalhamos duro nos últimos meses (um dos motivos da desatualização deste blog que vos fala): além das tarefas de casa da escola de estrangeiros, a professora daqui, do grupo 5, atochava tarefas para suprir os dias em que Mariana ficava em Amsterdam (esquema de 4 dias lá e 1 aqui). Eu, claro, tendo de preparar os recursos para ajudar nas tarefas porque o grupo 5 já trabalha com noções de fonética, sujeito, predicado etc. E muito vocabulário... O que está sendo ótimo para mim também, pois aprendo junto.

Enfim, a coitada da menina teve de estudar bastante. Mas, para ser bem sincera, isso nunca foi problema porque no Brasil, ela estava acostumada com a rotina de preparar as tarefas todos os dias por uma hora. O povo daqui se escandaliza, acha muito... Mas a danada gosta de estudar e os livros, gente, são muito legais! Extremamente lúdicos, vocês precisam ver o de matemática. Chego a pensar que se os meus tivessem sido assim, talvez eu tivesse crescido gostando da matéria. Sobrevivemos, o fato é este e a bichinha está sabida que só.

Agora, o coração está pequeno porque a escola que ela deixa amanhã é muito boa. Além da metodologia ser super eficiente, minha filha foi muitíssimo bem tratada lá, ganhou muitos livros, foi muito incentivada, fez passeios maravilhosos com a turma: praia, museus, parques, zoo. Hoje, a propósito, vão ao cinema. Todos os professores gostam muito dela e lá Mariana tem amigos do mundo inteiro.

Sei que amanhã vou pagar aquele King Kong, sou chorona, ai ai... Temos tanto a agradecer...

Bem, vou ali arrumar as sacolinhas com os presentinhos e guloseimas que Maricota vai dar aos colegas de turma. Depois eu conto como foi a coisa toda.

Fotografia: aqui.


sábado, 8 de outubro de 2011

A vida como ela é ou pode ser...



Pelo tempo que este blog passou sem atualizações, posso garantir que assunto é o que não falta. Coragem de blogar, no entanto, são outros quinhentos, vamos combinar, a mão de escrever meio que se perde pela falta de uso.

A começar pelo susto que tomei com a nova configuração do Blogger, não sei ainda dizer se foi para melhor ou não, vamos ver como me saio em relação a ela.

No entanto, quero falar sobre um assunto que me deixou assim, assim durante a semana que passou. Depois da pancada que levei na cabeça (literalmente) aqui em casa -- a porta do armário da cozinha na minha testa, amor à primeira vista, avassalador --, veio a lapada metafórica, aquela que mostra que o buraco, meus bens, é sempre mais embaixo.

A mãe de um colega de classe de Mariana, lá da escola de estrangeiros de Amsterdam, egípcia, doida de pedra, porém domada pelo catolicismo ortodoxo, além de dona de um coração enorme, diga-se, me contou a história que eu tentarei reproduzir a seguir.

Além do coleguinha egípcio 1, filho dessa minha amiga, tem um outro coleguinha egípcio 2 na turma da Mariana. Longe de ser um menosprezo numérico, prefiro não citar o nome dos meninos. Pois sim, ultimamente, eu tinha visto essa minha amiga com o irmão mais novo do menino 2 pra cima e pra baixo, direto mesmo.

Pensei cá com os meus botões: vai que ela está dando uma força para a mãe do menino 2, que está grávida de quase 9 meses, e como o menininho tem menos de 3 anos, ainda pede colo e tal, a minha amiga está quebrando um galho.

Tu pensas o óbvio, Kenia Mello! Quarta-feira passada, a minha amiga explicou o que estava acontecendo.

O pai do menino 2, que é da idade de Mariana, é fumante. Sim, e daí? Daí que, segundo a criatura me contou, um belo dia, ele, ao brincar com o menininho, deixou o cigarro cair dentro da camiseta do filho. O cigarro quebrou e saiu fazendo estrago no peito da criança. Na creche, as cuidadoras viram e acionaram a polícia, Resultado: os pais perderam a guarda do filho e como não têm parentes aqui na Holanda, tiveram de recorrer aos pais do menino 1, que estão com o menininho vivendo em casa, e os pais podendo visitá-lo apenas nos fins de semana. Em dezembro, a sorte da criança (e dos pais, óbvio) será decidida.

Eu, particularmente, achei essa história do cigarro quebrar meio esquisita, perguntei para a minha amiga se não tinha sido violência mesmo e ela me garantiu que os pais são pessoas boas. Who will know?

Por um lado, compreendo parcialmente a iniciativa das cuidadoras: ao ver a criança com o corpo queimado, é lógico que deveriam se pronunciar, chamar os pais, esclarecer o fato. O que me pergunto é se esse comportamento, de chamar a polícia imediatamente, aconteceria se os pais fossem holandeses. E se a história se passou mesmo assim, de acordo com a versão dos pais? Tremenda de uma injustiça, não?

O que eu vejo é a mãe todo dia na porta da escola, barriga pela boca, esperando o filho mais velho agarrada com o caçula, e depois vendo-o ir embora com a amiga que, generosamente, o está acolhendo em sua casa.

Coisas da vida que redirecionam nosso olhar tornando-o um pouco mais duvidoso de que a justiça seja cega. Tomara que ela não seja surda também.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ik ben trots op haar/ Mãe é bicho idiota mesmo...



Se mudar de cidade e alterar a rotina de uma criança de sete anos é complicado, imaginem mudar para um país cuja língua lhe é totalmente estranha e onde ela terá de começar basicamente do zero em termos de amizades, adaptação na(s) nova(as) escola(s) etc. Não foi fácil. Aliás, foi extremamente difícil tanto para ela quanto para nós. E o processo, apesar de já ter superado a fase inicial, ainda não terminou.

Sim, porque a pior coisa na vida é ver um filho sofrendo e não podermos fazer nada além de consolar e encorajar com a promessa de que depois as coisas vão melhorar. É osso. Cansei de me questionar sobre a decisão que tomamos de mudar para cá, foram muitos dias de insegurança, receio e angústia.

E a barra que ela enfrentou também não foi pequena.

Mariana sempre foi uma menina ultra comunicativa e com enorme facilidade de fazer amigos. Bastava que fôssemos almoçar em um restaurante com recreação infantil para que a criatura arrumasse três ou quatro amiguinhos e difícil mesmo era conseguirmos ir embora sem antes ouvir uns 137 só mais cinco minutos, mãe/pai.

Morávamos em um condomínio cheio de crianças, onde Mariana tinha bastante amigos e amigas, muitos deles tendo crescido junto com ela.

A escola é um capítulo à parte: Maricota começou a frequentá-la aos 2 anos e três meses, amava as tias, os amigos e amigas, a best friend Luísa. No último dia de escola, teve uma linda despedida, foi um chororô triste. Eu preferi não participar, ao invés de ir, mandei uma carta para a diretora explicando que eu não tinha condições emocionais de segurar a barra e ainda me manter equilibrada para resolver as muitas broncas pendentes antes da nossa vinda para cá -- pra vocês terem uma ideia, nosso voo saiu às 22h e às 15h do mesmíssimo dia, estava eu no consulado (em Recife) pegando os últimos carimbos com o cônsul...

Nessa carta, que escrevi para ser lida pela professora de Maricota na despedida, falei de cada funcionário da escola e de sua importância na vida da nossa filha. Ela, no entanto, não chorou nem nada: apenas consolou as amiguinhas e a tia. A ficha não tinha caído ainda.

Chegamos nas férias de outono. Amparada pela companhia do primo, ficou achando que estava aqui a passeio. O bicho pegou mesmo quando as aulas começaram e os desafios apareceram. No entanto, ela nunca se queixava diretamente, dizia que estava tudo bem, embora tivesse crises de choro diárias. Nessas horas, o coração apertava porque sabíamos que era a falta de tudo que lhe era familiar, seus amigos e amigas, sua rotina, suas pequenas certezas.

O pior dia foi quando, numa dessas crises de choro, pela primeira vez ela perguntou ao pai por que ele tinha lhe feito isso, por que tinha lhe tirado todos os amigos... O pai morreu, né? Rapidamente, Fernanda Montenegro assumiu o babado e falou que no Brasil também tinha coisas ruins, uma delas era o fato de papai viver sempre viajando a trabalho. Mariana consolada e eu uma noite sem dormir... Detalhes.

E assim os meses foram passando, até que ela começou a falar holandês com desenvoltura e perdeu o medo de pedir para brincar com criaturas da sua idade -- antes ela só interagia com crianças de 1 ou 2 anos --, e apesar de ainda dizer que não tem muitos amigos, não está mais infeliz.

Eu já tinha comentado aqui que ela frequenta a escola da nossa cidade uma vez por semana, devendo mudar para ela, em definitivo, lá pro fim de outubro. Pois bem, descobrimos que numa rua transversal à nossa mora um coleguinha de escola, com o qual ela se dá super bem. Hoje Maricota está passando o dia na casa dele e ele já veio visitá-la também.

E assim a vida segue o seu curso natural, com suas dificuldades, claro, mas cheia de pequenas e valiosas conquistas.

Mariana e R., aqui em casa, jogando Wii. Ele não é a cara do Charlie (Charlie e Lola, Discovery Kids)?




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Por detrás das tulipas e dos tamancos...



Antes de sair do Brasil, sempre ouvi dos amigos que moravam fora que uma das piores coisas do processo de viver no exterior, além da saudade da família, dos amigos e dos antigos costumes, claro, era a convivência com outros brasileiros porque, com poucas exceções, é cobra engolindo cobra, muita competitividade, muita falta de solidariedade etc.

No que me toca, ainda tenho muito pouco tempo aqui (seis meses) para falar sobre o assunto, porém como observar não paga imposto (ainda), tenho cá as minhas impressões.

A principal delas diz respeito à antiguidade em solo holandês. Isso mesmo, morar aqui por um determinado tempo, o suficiente para se ter o visto de cinco anos -- se tiver a cidadania holandesa, então, a coisa se agrava --, desencadeia um fenômeno curioso: existe algo em terras de Oranje que age sobre os genes da criatura e a torna mais holandesa do que os próprios holandeses! O ser conhece e sabe mais da vida na Nederlândia do que os próprios. Impressionante!

A ponto de as próprias holandesas se sentirem assim, sei lá, meio do Paraguai...

Dentre os principais sintomas dessa anomalia está a amnésia: a pessoa esquece completamente o quanto sofreu com o idioma, para conseguir o primeiro emprego, para dar conta das exigências do governo, enfim, esquece como chegou aqui...

Na cabecinha dela (ou pelo menos na imagem que ela tenta lhe vender...), a coisa é bem diferente:

Pois é, é muito sucesso, minha gente, vamos combinar.

De modo que ela, além de não se lembrar de nada do que passou, ainda esquece que, sim, o seu prazer de estar descobrindo as coisas aos poucos é genuíno e merece, no lugar de desdém, encorajamento.

Fico me perguntando o quê leva alguém a se transformar em algo assim. Muitas vezes o sofrimento, ao invés de transformar as pessoas em seres humanos melhores, faz com que elas se tornem mais mesquinhas, rancorosas e egoístas. Taí mais um clichê quebrado. É como se o progresso das demais as incomodassem, quer seja por medo de uma concorrência (muitas vezes imaginária) profissional e/ou pessoal, quer seja pela pura necessidade de se sentir superiores mesmo, tamanho deve ser o sentimento de inferioridade que carregam. Quem vai saber?

Claro que se estabelecer em um país estrangeiro com êxito é uma coisa muito importante e digna de admiração, ainda mais quando sabemos que precisamos lutar em dobro para conseguir todos os objetivos aos quais nos propomos. No entanto, grande parte desse brilho se perde justamente quando a falta de humildade se instala. E o mais melancólico nisso tudo é saber que essas pessoas terminam se transformando em um híbrido despatriado: por se acharem melhores do que os seus patrícios, jogam fora as suas origens, mal sabendo que, para os locais, por mais que elas se "integrem", serão sempre estrangeiras...




quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A primeira DR



Pois é, apesar das trocentas recomendações, Mariana só se segurou no primeiro dia. No dia seguinte à chegada de Dropje, ela já não se controlava mais e ficava nos calcanhares do gato a todo instante. E parecia que o danado estava gostando, pois, quando não estava dormindo (e eu em cima pra ela não acordá-lo...), estava do lado da criatura humana.

E assim se passaram dez anos os dias, até que ontem o par entrou na primeira crise: o gato vomitou. Até aí nada anormal, todo gato vomita os pêlos que lambe e ela sabe disso. Só que ele vomitou no quarto dela, perto da cama (nem preciso dizer quem limpou, né? Detalhes...) e a menina é enjoada com cheiro ruim, nojeira, essas coisas. Mas tudo bem, entendeu que faz parte, embora tenha ficado meio chateada.

Só que, desde ontem, o gato aparenta estar meio de saco cheio de tanta perseguição e tem se escondido debaixo de nossa cama, o único lugar que ele sabe ser à prova de Maricota -- se bem que ela tenta, mas como a cama é grande e ele sempre fica numa quina meio inacessível, vai se safando...

Hoje, quando voltamos do dentista (meu tratamento), ela chegou toda cheia de amor pra dar e foi acordar o gato. Ele, que não gostou da graça, correu pra debaixo da cama. Aí a revolta se apossou da pessoinha: correu pro quarto, pegou o quebra-cabeças de 200 peças, abriu o tapete do puzzle e começou a montá-lo, mas não sem antes fazer uma barricada na sala pro gato não chegar junto e danou-se a reclamar:



Esse gato agora vai ver quem vai fazer carinho nele. Pode ficar debaixo da cama que eu nem ligo. Pode devolver ele agora, mãe. Mas, Mariana, ele está se escondendo porque você não dá paz e ele precisa dormir. Quem manda ele trocar a noite pelo dia? E se ele quer paz, vá de volta pra casa dele. Pensem numa DR infeliz e unilateral (como quase todas, rá!)! E eu quase me estourando de rir, mas fazendo a séria porque se eu risse, ela ia ficar com mais raiva ainda.

E o gato, claro, continua debaixo da cama.



Só estou admirada que ele não tenha ainda dado nenhuma mordida ou arranhada. Mas a paciência dele deve estar por um fio. A minha, no seu lugar, estaria.




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O primeiro tombo de bike a gente nunca esquece...



Uma hora ia acontecer, claro. Quando saiu do Brasil, com quase 7 anos, Mariana ainda andava de bicicleta com rodinha. Isso porque, infelizmente, Recife não é dos lugares mais seguros pra se andar de bike na rua, de modo que ela preferia o patinete, uma vez que era o que o espaço no nosso condomínio permitia. Deixou, então, pra tirar as rodinhas aqui.

As crianças holandesas praticamente nascem em cima de uma bicicleta: tão logo começam a andar, já ganham uma bicicletinha de madeira para ir treinando equilíbrio, essas coisas. E claro que nós não queríamos que ela se sentisse um ET por não andar de bicicleta, né?



Maricota, como sempre, foi super rápida no gatilho: na primeira vez que foi treinar, com algum receio, lógico, já tirou de letra e saiu desembestada. Quase na frente do apartamento tem duas quadras imensas e foi lá que a criatura teve as primeiras lições:



Daí que a etapa seguinte naturalmente foi ir pras ciclovias: Paul e ela fizeram uns dois passeios antes de irmos os três por aí sem lenço, mas com documento. E ela foi super bem e confiante. Mas sempre naquele esquema um olho no peixe, outro no gato: Paul na frente, ela no meio e eu na retaguarda. Isso até a última sexta-feira...

Decidimos subir a ponte de Ijburg (bairro de Amsterdam construído numa ilha artificial aqui perto de Diemen). A ponte se chama Nesciobrug -- em tradução livre: Ponte do Estúpido (mentira, Nescio é o nome do arquiteto, super famoso por essas bandas, que tocou o projeto):



Vendo assim, todo mundo logo pensa: esses dois são uns irresponsáveis! Nada, gente, o que assusta mesmo é a altura/tamanho da ponte. Em cima, é super tranquilo e a ciclovia é segura. Confesso que quem quase fez nas calças fui eu, mas isso não é novidade.

Então, o acidente aconteceu depois que descemos a ponte. Entramos em um parque cuja ciclovia era imeeensa e quase sem movimento. Asfalto lindinho, árvores e depois da descida espremidos, resolvemos fazer o quê? Apostar uma corrida, claro. Mariana, que não perde pra basculho, danou-se a correr na frente. Eu e Paul entramos na onda e a ultrapassamos. Quando ouvi, foi só o estouro atrás de mim. Parece que ela não reduziu a velocidade na hora de mudar de marcha e alguma coisa travou, não sabemos ao certo.

O que vi foi a criatura chorando, estirada no asfalto. Larguei a minha bike no meio da ciclovia e corri pra socorrer. Ela estava com os dois cotovelos bem ralados, além do joelho. Quando ela se levantou, Paul viu que ela quebrou um pedacinho do dente. Pra quê! Fiquei nervosíssima, tenho o maior cuidado com os dentinhos dela e foi logo com um permanente. Nisso, uma família de ciclistas passou por nós no momento em que eu estava lavando e limpando os ferimentos -- sim, bolsa de mãe tem coisas inimagináveis... A turma viu que não tinha sido muita coisa e seguiu, mas a avó, que me viu chorando, parou e veio perguntar, se, de verdade, não precisávamos de nada. Achei muito bacana da parte dela.

A decisão era seguir direto pro dentista e rezar para o centro dentário estar aberto (a minha dentista, por exemplo, está de férias). E quem disse que ela queria descer a ponte pedalando? Medo, né? Fomos andando e depois da ponte seguimos normalmente de bicicleta até o dentista, que fica já na divisa da nossa cidade com Amsterdam, no outro lado de onde estávamos. Felizmente, tinha dois dentistas atendendo. Nisso, meu cunhado chegou com o carro pro caso de estar fechado e precisarmos procurar outro centro em Amsterdam.

Felizmente, foi pouca coisa, a raiz aparentemente não sofreu nada e daqui a duas semanas, iremos para fazer o preenchimento do pedacinho que caiu.



O dentista que a atendeu falou que daqui a três meses vai examinar de novo a raiz apenas por questão de precaução. Alívio, mas não sem culpa. Porque mãe SEMPRE se culpa por tudo de ruim que acontece com os filhos e eu não sou mesmo uma exceção. Coisas do tipo onde eu estava mesmo com a cabeça pra deixar essa corrida?, ai, ela poderia ter morrido etc. foram alguns dos meus instrumentos de tortura, claro. Mas passou, felizmente.

O resto do dia, ela passou assim, só capitalizando o evento, o tema da manha reinando:



Desde sexta que ela não quer saber da bike, disse que iria passar quatro dias sem pedalar. O que não vale agora é deixar o medo dominar porque bicicleta aqui é um prolongamento do corpo. Na próxima vez, mais atenção, apenas isso. E não dar sopa pro azar...





domingo, 7 de agosto de 2011

Com vocês, o senhor Gato!



Diretamente da maison van Dongen, temos a grata satisfação de vos apresentar ele, o tão aguardado, aquele sobre o qual planos e mais planos foram feitos. Sim, o inigualável Sr. Gato, também conhecido como Dropje, Preto, Poesje, Gato Chato da Porra:



Chegou ontem de manhã, todo desconfiado, de mala e cuia, tadinho. Como vocês podem ver, ele já é um senhorzinho. E Mariana debaixo de 357,6 recomendações pra não aporrinhar o bichinho nestes primeiros dias, nos quais ele está reconhecendo o terreno e aceitando a sua nova condição de presidiário.

A vantagem de ele ser um animal adulto é que aprende as coisas facilmente, já sabe onde ficam o seu toilet, na varandinha de trás, e a sua caminha, na sala de estar.



Meu medo era acordar hoje com a casa batizada, mas, felizmente, isso não aconteceu. Fui assuntar lá e não vi o número 2: ou ele enterrou ou está guardando pra hora da revolta. Aguardemos. Pelo menos ele já usou pro xixi porque tinha umas serragens do lado de fora.

Uma hora vai ter de sair, né?



E sendo ele preto e as almofadas do sofá brancas e de pano, óbvio que ele preferiu dormir lá. Hoje, a caminha dele vai pra cima do sofá (a parte de cima, o pole é pra ele coreografar e afiar as garras, espero).



Hoje ele já está bem mais tranquilo, já tirou várias sonecas e parece que este aí é um dos seus favoritos pro soninho de beleza:



Para ver o mundo e refletir sobre ser a liberdade o mais valioso bem de um ser, ele se aboleta aqui:



Nem sei se já contei aqui sobre alergia à picada de insetos, mas, sim, Mariana e eu temos. Meus cunhados, sabendo disso, passaram remédio contra pulga e carrapato, de modo que Dropje, além disso, está vermifugado e vacinado, enfim, com a saúde mais em dia do que os três reunidos. Menos, do que Paul e eu juntos, vai. No entanto, o mais curioso é que eu comecei a me coçar desde ontem... O que não faz a cabeça psicótica da gente, hein?

E, como não poderia deixar de ser, o amor se instalou nesta casa! Até livro infantil sobre Gatos a criatura pegou ontem na biblioteca, já que ela é toda trabalhada no tema da intelectualidade... Hoje, depois de ler o livrinho, está dando baile em mim e no pai sobre o que devemos ou não fazer com um gato, as suas preferências e os abusos, o comportamento felino, enfim, estamos criando uma cobrinha pra nos morder...



Aguardem porque mais novidades virão, com certeza.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Eu, a feira e o homem do queijo



Vivendo na Holanda, readquiri um costume que me acompanhou a infância toda, mas que desapareceu na vida adulta: ir à feira. Cresci indo à feira com a minha vó, e não se tratava de qualquer feira, não: era a Feira de Caruaru, moral. A maior feira ao ar livre do mundo, dizem as lendas greco-romanas (ai, como estou espirituosa!). Pois bem, todo sábado cedinho, íamos eu, D. Nau e mais alguma outra pessoa, que podia ser meu avô ou uma das moças que trabalhava lá em casa.

Foto da Feira de Caruaru no tempo da minha narrativa (década de 70):



Imagem deste século:



Aqui, além das feiras grandes em Amsterdam, nas quais vamos mais pra assuntar e comprar besteira do que fazer o rancho propriamente dito, tem uma feira na nossa área, Diemen Centrum, todas as quartas e não é o dia todo, apenas na parte da manhã, o que nos limita bastante porque nesse horário, estou no curso e Paul, no trabalho. De modo que nos sobram os sábados de manhã, nos quais apenas as barracas de frutas e verduras, de pães e biscoitos e de queijos e ovos abrem.

Feira sempre é uma coisa legal, aquela muvuca básica, produtos bons e bonitos e, quase sempre, mais baratos do que nos supermercados. Coisas fresquinhas saídas das fazendas. Neste ponto, as feiras holandesas, não aquelas muvucosas das grandes cidades, mas as pequenas, que não são pra turista ver, são as melhores:



Devo confessar que fico apenas no apoio (leia-se segurando as sacolas), enquanto Paul vai pra fila e faz os pedidos nas barracas. Sim, porque depois do curso, já me sinto mais à vontade para não precisar a toda hora, quando falam comigo na rua, pedir desculpas em inglês e dizer que não falo holandês. Agora, já não me intimido e digo que se a pessoa falar mais devagar, eu posso entender. Mas na feira, meus caros e caras, a coisa muda de figura! Especialmente no trailer dos queijos e ovos: o boer (fazendeiro) é uma figuraça! Fala pelos cotovelos e, gente, com um sotaque que escapa do meu nível de entendimento. E ele é simpático, adora puxar papo com os fregueses, e não basta apenas escolher, pagar e pegar. Ele conversa, ri, faz piada, pergunta, responde antes de você conseguir piscar, ou seja, eu só não faço xixi nas calças quando estou nas proximidades porque fico de costas, evitando estabelecer contato visual com a criatura, olhando as outras coisas enquanto Paul pega queijo e ovos.



De acordo com a bur(R)ocracia holandesa, eu devo mais um exame de língua holandesa para o governo daqui a três anos, mas, vou falar, no dia em que eu conseguir falar com o homem do queijo, entender o que ele diz e ainda me fazer compreender, me dou por satisfeita.



domingo, 24 de julho de 2011

A famosa sovinice holandesa



Muito antes de ver com os meus próprios olhos, Paul já me contava episódios da sua infância aqui na Holanda, os quais envolviam o tema comida e a maneira como os holandeses lidam com ela.

Com as nossas vindas de férias para cá, fui vendo como a coisa funciona. Se você visita um parente (especialmente uma pessoa idosa), o ritual segue da seguinte maneira: lhe é servido chá e/ou café e alguns biscoitos, por exemplo, e é esperado (a coisa é implícita, se você perguntar, claro que a resposta será Não! Imagina!) que a pessoa tome apenas mais uma xícara de chá e/ou café e coma mais um biscoito. Um amigo meu, brasileiro que mora há muitos anos em Rotterdam, costuma dizer pras suas visitas (e eu morro de rir quando ouço): pode pegar mais, mano(a), aqui não é casa de holandês, não.



E ouço de muitos brasileiros que moram aqui a mesma coisa: festa de holandês é uma amostra grátis da sovinice, é sempre um pedaço de torta, alguns cubinhos de queijo numa petisqueira, amendoins ou outro salgadinho qualquer e priu. Se é um jantar, a comida é feita de modo a cada um comer apenas um prato, sem ter direito de repetir.



Aí, quando eu ouço e leio esses relatos, inevitavelmente, lembro da minha infância, na casa dos meus avós. Sempre tivemos uma mesa farta, sem grandes luxos, mas uma mesa tipicamente nordestina, com certeza. No entanto, minha avó comandava a despensa e a cozinha com mãos de ferro: não havia desperdícios. Para se ter uma ideia, a manteiga vinha em porções individuais, em uns potinhos de vidro exclusivos para esse uso mesmo, e a quantidade era suficiente para passar no pão, cuscuz e no que mais apetecesse. No jantar, além do queijo de coalho frito, do pão quentinho, do inhame etc., vinha também a tradicional e gostosa sopa, feita com algumas coisas que sobravam do almoço. Simples assim.

De modo que, procurando analisar a coisa com um certo distanciamento, olho para a História e penso que num continente que passou pelas duas Grandes Guerras, as quais o levaram à extrema fome e à privação dos bens mais básicos, é compreensível que as pessoas ajam de modo sovina. Por outro lado, vejo as festas infantis suntuosas que rolam no Brasil, aniversários de crianças de 1 ano, que nada aproveitam nessas ocasiões, mas que custam os olhos da cara nos buffets e nas casas de festas, uma verdadeira indústria montada exatamente para esse segmento da sociedade (leia-se classe média, cafona e ostentadora, mas isso é outro papo...). E não tem como não pensar também no desperdício que rola, apesar dos inúmeros "pratinhos" (outra coisa horrorosa!) que os convidados levam pra casa.

E no dia a dia? A quantidade de comida que os supermercados jogam fora, que poderia ser perfeitamente encaminhada para creches, abrigos de idosos etc.? Já falei sobre isso aqui. E, por fim, se pararmos para pensar, com a quantidade de pessoas que ainda vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil, lá é que não poderia mesmo acontecer uma coisa dessas.

Acredito que essas diferenças devem ser compreendidas mais pelos aspectos cultural, histórico e político e menos pela crítica pura e gratuita. É por causa de visões simplistas e estereotipadas que o mundo, infelizmente, segue em passos largos na direção dos extremismos. Sei que o assunto deste post é sobre algo simples e despretensioso, mas a visão em superfície é algo muito perigoso e com relação isso, devemos estar sempre atentos.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Adivinha quem vem passar as férias conosco



Com as férias escolares, meus cunhados e sobrinhos seguem no início de agosto para o Brasil. Nem preciso dizer o quanto eu queria ir também, mas, depois de ter voltado em janeiro deste ano, não dá mesmo, Brasil agora só daqui a exatamente um ano, paciência. Pausa dramática. Pois bem, já comentei aqui sobre a vontade de Mariana de ter um animalzinho de estimação. Daí que os cunhados, sabendo desse amor platônico da sobrinha pelos bichinhos, perguntaram se a gente topava ficar com o deles nas férias.



Entonces, daqui a alguns dias, Dropje será o novo residente provisório desta morada de onde vos escrevo. Pra quem é versado nos costumes tamancolândicos, o nome do bonito é auto-explicativo, mas como a maioria dos meus poucos leitores não conhece, eis a explicação:



Drop é essa balinha preta aí de cima (dropje é o diminutivo), bem típica e, na minha opinião, pode até ter exceção, quem não é daqui e adestrado desde a infância pra gostar delas, definitivamente, acha uó. É o meu caso. Em termos de comida, tem realmente poucas coisas daqui que eu não gosto, o drop é uma delas, e o salgado, então, argh!

Bom, com o significado do nome da criatura já esclarecido, aguardamos ansiosamente a chegada do dito cujo.

Sobre sua personalidade: foi adotado pelos cunhados em um dos muitos asilos para animais abandonados. Quando chegou, já era um adulto jovem. Cunhada acredita que ele deve ter sido vítima de maus-tratos porque demorou um tempão para aceitar carinhos e confiar neles. E o danado é traiçoeiro: fica na maior esfregação com a gente e, de repente, nheco! Taca mordida, arranhada e tal. Cousas de um temperamento bipolar, tenho as manhas. E prevejo dias de fúria: ele é acostumado a ir e vir livremente, pois meus cunhados moram em casa. Já nós, moramos em apartamento e como ele não conhece a nossa vizinhança, não sou nem doida de deixá-lo sair... Esse gato vai enlouquecer: além da privação da liberdade e a casa estranha, terá uma criatura de 7 anos, cheia de amor e carinho, nos seus calcanhares por quatro semanas. Certamente, essas férias de Dropje serão inesquecíveis...


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vamos dar uma voltinha?



Faz tempo que eu venho prometendo escrever sobre o lugar em que Mariana estuda em Amsterdam, mas termino sempre protelando. Pois bem, depois que tirei as fotos e criei vergonha na cara para postar, lá vai.

Só para situar, mesmo Maricota tendo a cidadania holandesa, como foi criada no Brasil e não falava holandês, o governo exige a sua frequência em uma das muitas escolas para crianças estrangeiras. Lá, a meninada aprende a falar o idioma holandês, tem aulas de matemática, artes, natação, esportes etc., porém o foco mesmo é no aprendizado da língua.

E eu acho isso perfeito! A escola em que Mariana está é bem bacana: frequentando-a desde novembro passado, a criatura já fala muito bem, aliás, se já falava pelos cotovelos, agora bilíngue... Mas voltando, de lá, nada tenho a reclamar: os professores são muito bons e atenciosos com nossa filha e conosco (não é regra, já vi outras crianças serem tratadas com rispidez e os pais, idem), nada que se compare com o dengo com que as professoras do Brasil tratam nossas crianças, mas isso é uma questão cultural e não dá pra ficar morrendo todo dia porque a "tia" daqui não amolega Mariana. Aliás, os professores se despedem das crianças todos os dias com um aperto de mão, acho bonitinho.

Além das atividades internas, Mariana já foi com a turminha dela à praia, museus, zoo, parques etc. Como ela gosta de ler, quase sempre chega em casa com livrinhos infantis que ganha das professoras (eu aproveito e leio tudo pra me desasnar no holandês, como diria a minha vó), enfim, tudo isso para dizer que sim, eu gosto da escola e vou sentir saudades quando Mariana sair de lá -- coisa que deve acontecer por volta de novembro ou um pouco antes. Sou extremamente grata a cada juf e ao meester de Mariana. No entanto, durante os quatro dias da semana em que Mariana estuda lá (na sexta, ela frequenta a escola regular aqui em Diemen), confesso que, muitas vezes, vou buscá-la amarrada, abusada e louca para que ela venha logo de vez para a escola aqui de Diemen.

O motivo? Vem comigo...









Eu sei que a questão é complexa, falar em discriminação aqui é meio que um tabu social, mas, me diga aí, olhando para a lente da verdade: você investiria seu rico dinheirinho em uma hipoteca de uma vida toda em um bairro desses? Então, estamos conversados, né, nego(a)?

Mas continue me seguindo:









Isso porque eu não fotografei as fraldas cagadas que encontrei nas calçadas, as cenas de baculejo (revistas policiais, em pernambuquês), mas já deu pra ter uma ideia da razão do meu abuso, né?

Com tudo isso, não estou querendo ser melhor do que ninguém: assim como essas pessoas, sou também uma imigrante, a diferença é que, desde que cheguei aqui, estou me esforçando ao máximo para me integrar, aprender a língua, abrir a cabeça para muitas coisas que, por mais que sejamos oriundos de uma cultura ocidental, nos causam estranhamentos.

E ainda digo mais: não saí do meu país, o qual, como todos nós sabemos, tem seus problemas de sujeira e falta de saneamento, buracos (alô, Recife!), gente mal-educada que joga lixo na rua etc., pra me enfiar numa pocilga, não, dá licença? E ainda ter de aguentar desaforo desse povo: um dia, no bonde, um marroquino não quis abrir passagem para mim e pra minha filha, mesmo depois de eu ter pedido educadamente. Ao invés, apontou para a saída de trás do bonde! Foi só o que deu pra ele: levou um baile, bem alto e em inglês -- ainda não tenho segurança suficiente para esculhambar em holandês, mas isso também é uma questão de tempo --, pra todo mundo ouvir e ele entender que eu não aceitei Allah como as negas dele.




terça-feira, 12 de julho de 2011

Zomerfestival -- a menina não morreu do coração, mas quase



Pois bem, eis que chegou o dia do Zomerfestival. Dissemos pra criatura que iríamos dar umas voltas em Rotterdam, em uma parte da cidade que ela não conhecia -- temos um amigo lá, mas a casa dele fica do outro lado da cidade. Daí que ela foi toda na má vontade, achando um saco ficar só batendo perna sem ver a amiga, filha desse nosso amigo, que, por ser mais velha que Maricota, não curte esse tipo de programa. E lá fomos nós, quase duas horas de trem e a mocinha já entediada na primeira...

Dá um sorriso, Mariana, (clique nas fotos para ampliá-las)



Pra terminar de melhorar, estava chovendo. Assim que saímos da estação, que fica bem pertinho do Ahoy, passamos debaixo de uma árvore enorme, que despejou um monte de água nas nossas cabeças. Piti grande. Mas prosseguimos. À medida que nos aproximávamos do Ahoy, foram surgindo crianças fantasiadas de K3, Piet Piraat etc., mas ela nem tchum. Só foi cair a ficha quando ouviu a música de K3 e viu mais trombadinhas vestidos a caráter pro evento. Daí, a mamãe aqui sacou a câmera e fez a revelação do motivo da nossa ida a Rotterdam. A cara porque os pinotes, só filmando:



Aí a transformação, né? A bondade e a doçura em forma de criança... Antes de irmos pros nossos lugares, demos aquela ida de praxe no wc e ela não parava de dizer que não tinha acordado e que ainda estava sonhando. Nessa hora, o coração peludo da mãe se encheu de algodão doce, chocolate, jujuba e... cof cof... chega.

Nossa vista do palco:



Aí a carinha não foi fake:



Mariana e eu trajando uma escova agressiva (mentira, faz anos que não faço escova, efeito da chuva mesmo):



Um pouco do show, que durou uma hora e meia:













K3, as ídolas:



Quase tem uma síncope, levantou e foi se jogar junto com a espanhola à sua direita (a menina era enorme, morri de medo que ela se empolgasse na coreografia e desse uma mãozada em Maricota):



O fim do show com todas as personagens:




Fim de feira:








Com certeza, desse ela vai lembrar pro resto da vida. ;)