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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre tudo ou sobre nada




Às vezes penso que o Facebook tira minha vontade de escrever. Não que lá eu escreva demais. No entanto, o gosto por escrever se dilui, talvez pelo simples fato de lá haver mais feedback, sei lá. Além do mais, não tenho mais aquela energia que tinha de escrever aqui, nas velhas e boas listas de discussão do Yahoo e ainda manter um fluxo considerável de e-mails pessoais, estou cansada das virtualidades, acho. Também porque eu, pessoa prolixa que sou, muitas vezes não me contento em não ir fundo naquilo que escrevo e, ultimamente, a vida, muito mais que as palavras, as quais são a sua elaboração, tem me imposto esse ônus, aí eu penso: já deu por hoje, né? A verdade é que estou num momento mais para dentro, naquele processo de plantar para colher não sei quando e imprecisão não é palavra das mais palatáveis.

Ontem, faleceu uma tia minha, irmã do meu pai, de quem fui muito próxima quando criança e pré-adolescente. Faleceu na madrugada (horário do Brasil), depois de um tempo internada, oscilando entre saídas e voltas para a UTI. Uma morte já anunciada, mas mesmo assim sentida por todos nós. Aí voltam as lembranças, a impossibilidade de estar com a família. E eu compartilhei com a minha filha todas as boas lembranças porque ela conheceu a tia já vitimada pelo Alzheimer, desmemoriada, e eu quis lhe dizer que nem sempre ela havia sido assim. No final, Mariana achou uma pena não tê-la conhecido como eu. É sempre uma pena não viver. Ou viver demais.

Pelo fato de ter saído da tutela familiar aos 20 anos (fui morar em Belém e de lá, ganhei o mundo), perdi diversos familiares estando ausente e isso vai calejando um pouco, mas sempre fica a sensação de estar no meio do nada, deixando escapar entre os dedos os fios que formam essa teia invisível de sentimentos, que são a substância da qual somos feitos. De qualquer forma, seguimos acumulando não ausências, mas lembranças e reconciliações, a história que contaremos aos nossos filhos e eles, aos nossos netos. A vida em sua aterradora simplicidade.



sábado, 8 de outubro de 2011

A vida como ela é ou pode ser...



Pelo tempo que este blog passou sem atualizações, posso garantir que assunto é o que não falta. Coragem de blogar, no entanto, são outros quinhentos, vamos combinar, a mão de escrever meio que se perde pela falta de uso.

A começar pelo susto que tomei com a nova configuração do Blogger, não sei ainda dizer se foi para melhor ou não, vamos ver como me saio em relação a ela.

No entanto, quero falar sobre um assunto que me deixou assim, assim durante a semana que passou. Depois da pancada que levei na cabeça (literalmente) aqui em casa -- a porta do armário da cozinha na minha testa, amor à primeira vista, avassalador --, veio a lapada metafórica, aquela que mostra que o buraco, meus bens, é sempre mais embaixo.

A mãe de um colega de classe de Mariana, lá da escola de estrangeiros de Amsterdam, egípcia, doida de pedra, porém domada pelo catolicismo ortodoxo, além de dona de um coração enorme, diga-se, me contou a história que eu tentarei reproduzir a seguir.

Além do coleguinha egípcio 1, filho dessa minha amiga, tem um outro coleguinha egípcio 2 na turma da Mariana. Longe de ser um menosprezo numérico, prefiro não citar o nome dos meninos. Pois sim, ultimamente, eu tinha visto essa minha amiga com o irmão mais novo do menino 2 pra cima e pra baixo, direto mesmo.

Pensei cá com os meus botões: vai que ela está dando uma força para a mãe do menino 2, que está grávida de quase 9 meses, e como o menininho tem menos de 3 anos, ainda pede colo e tal, a minha amiga está quebrando um galho.

Tu pensas o óbvio, Kenia Mello! Quarta-feira passada, a minha amiga explicou o que estava acontecendo.

O pai do menino 2, que é da idade de Mariana, é fumante. Sim, e daí? Daí que, segundo a criatura me contou, um belo dia, ele, ao brincar com o menininho, deixou o cigarro cair dentro da camiseta do filho. O cigarro quebrou e saiu fazendo estrago no peito da criança. Na creche, as cuidadoras viram e acionaram a polícia, Resultado: os pais perderam a guarda do filho e como não têm parentes aqui na Holanda, tiveram de recorrer aos pais do menino 1, que estão com o menininho vivendo em casa, e os pais podendo visitá-lo apenas nos fins de semana. Em dezembro, a sorte da criança (e dos pais, óbvio) será decidida.

Eu, particularmente, achei essa história do cigarro quebrar meio esquisita, perguntei para a minha amiga se não tinha sido violência mesmo e ela me garantiu que os pais são pessoas boas. Who will know?

Por um lado, compreendo parcialmente a iniciativa das cuidadoras: ao ver a criança com o corpo queimado, é lógico que deveriam se pronunciar, chamar os pais, esclarecer o fato. O que me pergunto é se esse comportamento, de chamar a polícia imediatamente, aconteceria se os pais fossem holandeses. E se a história se passou mesmo assim, de acordo com a versão dos pais? Tremenda de uma injustiça, não?

O que eu vejo é a mãe todo dia na porta da escola, barriga pela boca, esperando o filho mais velho agarrada com o caçula, e depois vendo-o ir embora com a amiga que, generosamente, o está acolhendo em sua casa.

Coisas da vida que redirecionam nosso olhar tornando-o um pouco mais duvidoso de que a justiça seja cega. Tomara que ela não seja surda também.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Por detrás das tulipas e dos tamancos...



Antes de sair do Brasil, sempre ouvi dos amigos que moravam fora que uma das piores coisas do processo de viver no exterior, além da saudade da família, dos amigos e dos antigos costumes, claro, era a convivência com outros brasileiros porque, com poucas exceções, é cobra engolindo cobra, muita competitividade, muita falta de solidariedade etc.

No que me toca, ainda tenho muito pouco tempo aqui (seis meses) para falar sobre o assunto, porém como observar não paga imposto (ainda), tenho cá as minhas impressões.

A principal delas diz respeito à antiguidade em solo holandês. Isso mesmo, morar aqui por um determinado tempo, o suficiente para se ter o visto de cinco anos -- se tiver a cidadania holandesa, então, a coisa se agrava --, desencadeia um fenômeno curioso: existe algo em terras de Oranje que age sobre os genes da criatura e a torna mais holandesa do que os próprios holandeses! O ser conhece e sabe mais da vida na Nederlândia do que os próprios. Impressionante!

A ponto de as próprias holandesas se sentirem assim, sei lá, meio do Paraguai...

Dentre os principais sintomas dessa anomalia está a amnésia: a pessoa esquece completamente o quanto sofreu com o idioma, para conseguir o primeiro emprego, para dar conta das exigências do governo, enfim, esquece como chegou aqui...

Na cabecinha dela (ou pelo menos na imagem que ela tenta lhe vender...), a coisa é bem diferente:

Pois é, é muito sucesso, minha gente, vamos combinar.

De modo que ela, além de não se lembrar de nada do que passou, ainda esquece que, sim, o seu prazer de estar descobrindo as coisas aos poucos é genuíno e merece, no lugar de desdém, encorajamento.

Fico me perguntando o quê leva alguém a se transformar em algo assim. Muitas vezes o sofrimento, ao invés de transformar as pessoas em seres humanos melhores, faz com que elas se tornem mais mesquinhas, rancorosas e egoístas. Taí mais um clichê quebrado. É como se o progresso das demais as incomodassem, quer seja por medo de uma concorrência (muitas vezes imaginária) profissional e/ou pessoal, quer seja pela pura necessidade de se sentir superiores mesmo, tamanho deve ser o sentimento de inferioridade que carregam. Quem vai saber?

Claro que se estabelecer em um país estrangeiro com êxito é uma coisa muito importante e digna de admiração, ainda mais quando sabemos que precisamos lutar em dobro para conseguir todos os objetivos aos quais nos propomos. No entanto, grande parte desse brilho se perde justamente quando a falta de humildade se instala. E o mais melancólico nisso tudo é saber que essas pessoas terminam se transformando em um híbrido despatriado: por se acharem melhores do que os seus patrícios, jogam fora as suas origens, mal sabendo que, para os locais, por mais que elas se "integrem", serão sempre estrangeiras...




sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vamos dar uma voltinha?



Faz tempo que eu venho prometendo escrever sobre o lugar em que Mariana estuda em Amsterdam, mas termino sempre protelando. Pois bem, depois que tirei as fotos e criei vergonha na cara para postar, lá vai.

Só para situar, mesmo Maricota tendo a cidadania holandesa, como foi criada no Brasil e não falava holandês, o governo exige a sua frequência em uma das muitas escolas para crianças estrangeiras. Lá, a meninada aprende a falar o idioma holandês, tem aulas de matemática, artes, natação, esportes etc., porém o foco mesmo é no aprendizado da língua.

E eu acho isso perfeito! A escola em que Mariana está é bem bacana: frequentando-a desde novembro passado, a criatura já fala muito bem, aliás, se já falava pelos cotovelos, agora bilíngue... Mas voltando, de lá, nada tenho a reclamar: os professores são muito bons e atenciosos com nossa filha e conosco (não é regra, já vi outras crianças serem tratadas com rispidez e os pais, idem), nada que se compare com o dengo com que as professoras do Brasil tratam nossas crianças, mas isso é uma questão cultural e não dá pra ficar morrendo todo dia porque a "tia" daqui não amolega Mariana. Aliás, os professores se despedem das crianças todos os dias com um aperto de mão, acho bonitinho.

Além das atividades internas, Mariana já foi com a turminha dela à praia, museus, zoo, parques etc. Como ela gosta de ler, quase sempre chega em casa com livrinhos infantis que ganha das professoras (eu aproveito e leio tudo pra me desasnar no holandês, como diria a minha vó), enfim, tudo isso para dizer que sim, eu gosto da escola e vou sentir saudades quando Mariana sair de lá -- coisa que deve acontecer por volta de novembro ou um pouco antes. Sou extremamente grata a cada juf e ao meester de Mariana. No entanto, durante os quatro dias da semana em que Mariana estuda lá (na sexta, ela frequenta a escola regular aqui em Diemen), confesso que, muitas vezes, vou buscá-la amarrada, abusada e louca para que ela venha logo de vez para a escola aqui de Diemen.

O motivo? Vem comigo...









Eu sei que a questão é complexa, falar em discriminação aqui é meio que um tabu social, mas, me diga aí, olhando para a lente da verdade: você investiria seu rico dinheirinho em uma hipoteca de uma vida toda em um bairro desses? Então, estamos conversados, né, nego(a)?

Mas continue me seguindo:









Isso porque eu não fotografei as fraldas cagadas que encontrei nas calçadas, as cenas de baculejo (revistas policiais, em pernambuquês), mas já deu pra ter uma ideia da razão do meu abuso, né?

Com tudo isso, não estou querendo ser melhor do que ninguém: assim como essas pessoas, sou também uma imigrante, a diferença é que, desde que cheguei aqui, estou me esforçando ao máximo para me integrar, aprender a língua, abrir a cabeça para muitas coisas que, por mais que sejamos oriundos de uma cultura ocidental, nos causam estranhamentos.

E ainda digo mais: não saí do meu país, o qual, como todos nós sabemos, tem seus problemas de sujeira e falta de saneamento, buracos (alô, Recife!), gente mal-educada que joga lixo na rua etc., pra me enfiar numa pocilga, não, dá licença? E ainda ter de aguentar desaforo desse povo: um dia, no bonde, um marroquino não quis abrir passagem para mim e pra minha filha, mesmo depois de eu ter pedido educadamente. Ao invés, apontou para a saída de trás do bonde! Foi só o que deu pra ele: levou um baile, bem alto e em inglês -- ainda não tenho segurança suficiente para esculhambar em holandês, mas isso também é uma questão de tempo --, pra todo mundo ouvir e ele entender que eu não aceitei Allah como as negas dele.




quarta-feira, 4 de maio de 2011

Osama, Obama, onde estás?



Enquanto a aprovação a Barack Obama sobe nove pontos depois da morte de Osama bin Laden, fico pensando como a humanidade é incapaz de aprender com os próprios erros. E é a partir dessa reflexão que, no meu conceito, Obama caiu pra lá de nove pontos. Com a morte de Bin Laden, ao que parece, sem chance de defesa, à queima-roupa, os Estados Unidos perderam uma ótima oportunidade de se reafirmar como uma nação que merece respeito. Ao invés, preferiram se igualar na barbárie, na dissolução de todos os valores que apregoam e que lhes fazem uma democracia.

Em uma missão que desde o início foi encetada para o extermínio, o que fez o homem mais poderoso do mundo, Prêmio Nobel da Paz de 2009? Nivelou o seu país, o seu governo e a si próprio no mesmo patamar da selvageria e da insanidade provocadas pela cegueira da vingança. Muito pequeno pensar que essa atitude visou ao seu fortalecimento no processo de reeleição. Muito pequeno. O que sobra, então?



Obama perdeu uma grande oportunidade de quebrar a cadeia do ódio, desperdiçou a chance de deixar o seu nome na história não apenas como o primeiro negro a presidir os EUA, fato já consumado e escrito, mas como alguém que realmente entende o significado do prêmio que recebeu, dois anos atrás. Alguém que conseguiu enxergar na tríade Holocausto-judeus-palestinos, por exemplo, o quão cíclico e explosivo o sentimento de revanche, de ódio e de belicosidade pode ser. Que, a despeito de qualquer dor provocada, nada pode legitimar a perpetuação do ódio e da vingança, partam eles em qual direção partirem. Por que cito esse exemplo? Porque tivessem os judeus aprendido com seu própio sofrimento, não estariam impingindo o mesmo tipo de opressão ao povo palestino. Obama parece não ter aprendido com os exemplos, que são muitos.



Bin Laden não era um santo. Na galeria para onde Osama foi despachado, encontram-se os piores seres humanos que já pisaram na terra, não há dúvida quanto a isso. Além das muitas vidas ceifadas, incluindo as famílias que ficaram mutiladas pelo 11 de Setembro, Osama transformou o mundo em um lugar muito perigoso: antes, quando se falava em terrorismo, vinham à cabeça alguns países da América do Sul, IRA, ETA e só. Depois dos atentados de Bin Laden, o perigo mora aqui e em qualquer lugar. Um fanático, um louco, um ser humano execrável. Mas os Estados Unidos trataram de transformá-lo em um mártir. Se antes o mundo inteiro o odiava, hoje muitos começam a enxergar um rasgo da humanidade que o próprio Bin Laden jogou no lixo da História ao praticar atrocidades.



E aqui nem me detenho nas inúmeras contradições e situações nebulosas que envolvem a morte de Osama. Ora se diz que ele reagiu e estava armado, ora se diz que estava desarmado e na cama. Ora se diz que fez a mulher de escudo, ora se diz que a mulher sobreviveu. Onde está o corpo de Bin Laden? Ora se diz que foi enterrado no mar, de acordo com os rituais islâmicos. Quem pode acreditar nisso? Desde quando quem sai em uma missão, cujo único objetivo é a morte, está preocupado em respeitar um cadáver odiado? Se eu tenho essas dúvidas e não sou a única a tê-las, se eu desacredito da boa-fé norte-americana, se eu acho que essa história está mal contada e que muita maquiagem ainda vai ser colocada por cima, é por única e exclusiva culpa do próprio governo norte-americano. Tivessem-no capturado e levado a um tribunal para ser condenado à morte, que fosse, e aí fizessem uso de toda parafernália midiática e hollywoodiana de sempre, que fosse também, assim, e só assim, não estariam agora na mesma posição do bandido. E com a tremenda batata quente de ter de explicar o inexplicável. Perderam, cowboys.





quarta-feira, 27 de abril de 2011

E no café da manhã, quer o quê?






Quem acompanha este blog e/ou me conhece fora dele, sabe o quanto o final de 2009 e 2010 inteiro foram difíceis para nós.

No auge da crise econômica, eu não botava a menor fé que Paul fosse contratado, aqui na Holanda, para o mesmo cargo que exercia no Brasil (e um ano depois ser promovido, inclusive), quando muita gente tinha seus salários reduzidos ou mesmo era demitida. E tudo ocorreu de uma hora para a outra. Passamos um mês de férias aqui (abril de 2009) e nesse meio tempo, Paul fez algumas entrevistas de trabalho e tal, mas tudo muito vago. Voltamos para o Brasil e três meses depois, uma empresa liga dizendo querer uma entrevista, Paul volta para cá, faz a bendita entrevista, assina contrato, volta para o Brasil e tem até o final daquele mês para assumir seu cargo na nova empresa. Assim, vapt vupt, do dia pra noite.

Daí que eu e Mariana ficamos sozinhas de repente e lidar com isso não foi fácil porque Paul, apesar de viver viajando a trabalho, sempre foi muito presente. No caso de qualquer urgência, que nunca aconteceu, felizmente, pegar um avião de São Paulo para Recife, por exemplo, não seria nada de mais. Já do outro lado do oceano, a coisa mudava de figura...

Pois bem, minha vida virou de cabeça para baixo, tive de segurar a minha onda e a de Mariana, que se acabava de chorar por causa do pai, tive de dar conta das últimas disciplinas presenciais da minha pós-graduação, redigir meu trabalho de pesquisa em literatura brasileira o mais rápido que pude para ganhar tempo e poder me preparar para o exame de língua holandesa, que fez parte do pacote da imigração; fora as broncas cotidianas, coisas de casa etc. Enfim, eu tive de me virar em mil e sem ajuda de ninguém.

Foi nessa fase que muitas pessoas, tidas como amigas, mostraram realmente quem eram: sequer se deram ao trabalho de fazer uma simples ligação para perguntar se estávamos, eu e Mariana, precisando de alguma coisa. Apesar de na época eu ter me chocado com esse tipo de comportamento, hoje percebo que ele foi essencial porque serviu para mostrar quem efetivamente pode ser considerado amigo. E hoje eu sei quem é quem.

Engraçado agora é ver que esses "amigos" se dividem, em relação a nós, em duas categorias: os que estão com algum problema e acham que nós temos obrigação de ajudá-los (e ficam magoados quando acham que não estão sendo prontamente atendidos por nós, os insensíveis!) e aqueles que vivem mandando recadinho em MSN, Facebook, Orkut, e-mail etc., dizendo que, em breve, vêm nos visitar -- ficando hospedados aqui em casa, claro. Ah, meu, vão tomar no cu, sim?


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mundiça there and everywhere



Falando agora a pouco com Simone sobre o quanto gostamos de muvuca, lembrei de um episódio que eu e Mariana presenciamos, semana passada, em Amsterdam. Estávamos esperando o 9 na parada que fica na esquina da Kruislaan, quando, de repente (tocando viola), ouvimos um barulho de batida de carro. O acidente envolveu dois carros, sendo que um deles ficou com a frente dividida por um poste. Deste carro desceram duas moças e uma delas começou a bater boca com a motorista do outro carro envolvido na confusão. Eis que quando a discussão começou a esquentar, uma das mulheres partiu pro tapa! Deu uns socos na mulher que estava sozinha e, claro, agarrou no cabelo da triste como se não houvesse amanhã:





Mariana, que nunca tinha assistido a uma cena de pugilato dessas, ficou de queixo caído, igualzinho a quando era bebê e via alguma coisa que lhe chamava atenção. Eu lhe pedi que tapasse os olhos,



mas quem disse que ela resistiu? Continuou lá, com a boca aberta, tadinha, e o pau cantando. O engraçado foi que a agressora estava usando uma roupa de balé, acho que ia ou vinha de alguma apresentação ou curso. Surreal. Felizmente, a turma do deixa disso intercedeu e os ânimos se acalmaram. Polícia que é bom, nada. E se fossem brasileiras é porque eram mundiça. Rá.



domingo, 17 de abril de 2011

Holanda, o antro de devassidão...






Não se iludam: por trás dessa bela e idílica paisagem holandesa, há toda sorte de depravações e vícios que se possa imaginar! É, a Holanda definitivamente é coisa do demo. Brincadeira minha? Nada! O pior é que muita gente tem essa visão da Nederlândia, tadinha.

Dando uma olhada nos sites de notícias brasileiros, deparei-me com esta nota sobre o ataque de hackers nos semáforos de Nijmegen (no site, a grafia está errada). Deem uma olhada no naipe dos comentários: além da incapacidade de interpretar um texto de um único parágrafo, a maioria dos comentadores demonstra uma visão completamente estereotipada da Holanda.

Certa vez, quando a nossa vinda para cá ainda era um projeto, cheguei a ouvir de uma conhecida que a Holanda não era lugar para criar filhos! Por causa das drogas, que são todas liberadas, da legalização da prostituição e do casamento gay. Uma anta, não? Claro, mas, justiça seja feita, ela representa o senso comum. Para muita gente, a Holanda é isso aí mesmo: zona livre para toda sorte de putaria e consumo livre de drogas.

Não é bem assim. Drogas como maconha, haxixe, algumas espécies de cogumelos, entre outras, são consideradas drogas "leves" (as quais o governo considera como representantes de um risco aceitável para a sociedade) e são toleradas para o consumo, mas o tráfico e a plantação, por exemplo, são proibidos. As drogas "pesadas" (heroína, cocaína etc.) são proibidas.
A diferença, em termos bem prosaicos, é que se a criatura aqui for pega fumando um cigarro de maconha, não vai ser presa nem apanhar da polícia, por exemplo.

Sobre a legalização da união gay, particularmente, considero uma questão de justiça e de direito. Ponto. Nada mais a ser discutido.

Na ocasião, perguntei para a tenaz defendora da moral e dos bons costumes se ela achava mais decente as moças e os rapazes ficarem no meio da rua expostos a todo tipo de violência (policial, inclusive), sem nenhuma assistência. E a resposta qual foi? Nenhuma. Ou melhor, houve: o silêncio, que é sempre o melhor companheiro da hipocrisia.




quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ainda sobre a questão da burca








Diante dos comentários sobre o post anterior aqui e no Facebook, gostaria de esclarecer alguns pontos. Baseio meus comentários nos principais argumentos que as pessoas usaram para apoiar a atitude do governo francês: a submissão feminina e a segurança.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer, mais uma vez, que os argumentos acima não apoiam a minha opinião: apenas o princípio da reciprocidade me faz ser favorável à decisão do governo francês, como afirmei no post anterior.

Quando alguém diz que a mulher muçulmana é oprimida porque usa véu, burca e demais paramentos, está assumindo, aí sim, uma postura etnocêntrica: colocando a (pseudo) liberdade da mulher ocidental como algo superior e que deve ser copiado simplesmente porque é o melhor que se pode pensar para a mulher. Particularmente, acredito que muitas mulheres muçulmanas talvez não gostem de usá-los, mas e as que gostam? Não acredito que seja por aí. Agora, nesse nível de argumentação, por favor não incluam a estirpação de clitóris (clitoridectomia), o direito de matar para lavar a honra familiar etc. Na minha opinião, são costumes selvagens e primitivos, que devem ser banidos mesmo. Foda-se quem vir etnocentrismo na minha opinião. Qualquer prática que cause dor, mutilação, sofrimento e morte deve ser execrada. Apenas entendo que na questão da burca, usar essas práticas como argumento para levar vantagem na discussão é desonesto. Volto a repetir: a maioria das mulheres muçulmanas não se opõe a usar véu, burca etc. Tem as que não gostam e usam por obrigação? Lógico. Estar sempre magra, maquiada e produzida muitas vezes também não é um fardo? Ora.

Agora, o pior de tudo é justificar a proibição da burca porque ali dentro pode estar um(a) terrorista. Paranóia, medo instigado e cultivado no pós 11 de Setembro para justificar perseguições, pura propaganda coersitiva. O controle pelo medo, bem a cara dos Estados Unidos da América. Pode haver um homem-bomba ali dentro? Claro! Mas, como argumentou uma amiga minha no FB, e um Ronald McDonald, ícone do fast food americano, também não poderia escondê-lo? Menos, menos, pessoal.

Volto a tocar na tecla da reciprocidade. E volto a não entender por que ninguém que é contrário à atitude do governo francês consegue justificar a intolerância muçulmana em exigir que as mulheres ocidentais, em terras de Allah, tenham de se cobrir. Em um fim de semana desses, conheci, em casa de um amigo, uma mulher (brasileira) que mora em Dubai e ouvi dela a agonia que é ter de se lembrar de cobrir os braços, o colo etc. para sair de casa. E logo Dubai, que abre as pernas para os infiéis ocidentais... Pois é.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Intolerância ? - Burca na França








Desde ontem não se fala em outra coisa nos jornais daqui que não seja a prisão das mulheres muçulmanas, as quais desobedeceram à lei que proíbe o uso da burca, na França. Fala-se de intolerância, de desrespeito à liberdade de credo etc. Aqui na Holanda, a população muçulmana é numerosa, e o holandês, basicamente, assume duas posições diante dela: ou se alinha com o político de extrema-direita Geert Wilders ou fica em cima do muro (a maioria), postura esta, aliás, que estou começando a perceber ser uma constante em muitos outros aspectos da vida holandesa.

Já eu acho o seguinte: se na maioria dos países muçulmanos, a mulher ocidental é obrigada a cobrir a cabeça, o colo e os braços, podendo ser vítima de violência física e/ou verbal caso não o faça, por que motivo, então, não deve haver reciprocidade nos países não-muçulmanos? Querem impor as leis em seu país (o que é legítimo), mas não querem obedecer às leis do país que escolheram para viver? Assim é bom. Parece que a tolerância e a diversidade são usadas unilateralmente nesse caso, não?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009






Sinto falta de tantas coisas, mas, especialmente, da minha vida, a que eu tinha. Antes, quando eu achava que não sabia mais viver sozinha. Eu sei, e isso não me traz orgulho algum. Bastar-se é o caminho mais certo para o embrutecimento: as coisas existem, esbarram-se doídas dentro de mim, mas não me desaguam. Tempos difíceis estes de não sentir, o embrutecimento.

terça-feira, 3 de novembro de 2009






Certas situações se insinuam tão sorrateiramente e se aboletam na nossa vida de modo que sequer percebemos o quanto não é natural viver com o peso do mundo inteiro nas costas: a gente acorda cansado, sem saber ao certo o que incomoda, mas também sem ânimo algum para cascavilhar motivos, entorpecimento que mais parece resultar de mandinga, reza braba ou coisa feita, o que vem a dar exatamente no mesmo. E assim a gente segue naquele fazer o quê? que é a constatação do que de mais óbvio existe na face da terra: a vida é isso mesmo. E você só se dá conta quando, num inesperado rasgo de lucidez temperado com uma pitada de doidice e falta do que perder, sapeca um basta bem redondo na cara do que te esmaga e muda a lógica da expropriação de si mesmo. Depois do espanto, a vida começa a seguir com a serenidade e a leveza que há muito tinham sido esquecidas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Karma Sutra






Sei não, mas desconfio que em outras vidas fui:

a) animadora de festas
b) psiquiatra
c) vidente
d) muambeira
e) dona de pensão
f) cafetina
g) orelhão

Só pode. Karma é a única explicação que me resta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009






não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não. não...


Fazendo a lição de casa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Exit






Estava aqui pensando na pouca atenção e cuidado com que a maioria das pessoas trata os períodos que requerem mais silêncio nas suas vidas. Aqueles em que qualquer palavra, por mínima que seja, cheira à verborragia, momentos em que tudo é excessivo. Por que o silêncio se tornou algo tão perturbador e inadequado? Essa loucura toda de ter que fazer parte a todo custo, essa urgência de apresentar-se (ou seria mais justo representar-se?) vida afora sempre com o mais belo sorriso, com as frases mais espirituosas e tudo mais que de bacana houver, fazem com que se esqueça que assim como o corpo pede comida, ele também pede silêncio e recolhimento. Falta de respeito a si mesmo, cabe mais honestamente dizer porque violência maior é a de quem se sabe, e, mesmo assim, agride-se, inflige-se desnecessariamente. Em dias como estes, sabendo o que sei sobre os fantasmas nada camaradas e os demônios de estimação, prefiro ficar quieta no meu canto e isso nada tem de pernóstico. Pelo fato de conhecer a minha crueza nestes dias, abstenho-me da partida ao invés de sair por aí tentando comover as pessoas com os meus pequenos grandes dramas existenciais. Sim, porque a dor, além do óbvio de socar as entranhas e tirar o fôlego, também confere uma aura de martírio que impossibilita o enxergar do outro. A minha dor será sempre a maior, a mais angustiante, a mais imerecida. A dor do outro? Faniquito! Então, fugindo desse tipo de comportamento pequenininho, e também para não fazer das relações com as pessoas que me são caras um campo de batalha, pois estando amesquinhada no meu próprio umbigo não poderei ser quem sou sem recorrer a quebras de braço de naturezas várias, prefiro me recolher e lamber as feridas. Muitas vezes, a porta da saída é o melhor caminho para se preservar a própria dignidade e a alheia. Sair à francesa é arte para poucos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Farsesco






às vezes tudo parece sonho comprido, exaustivo, em preto e branco. as cortinas quebraram, o vinho azedou, a poeira cobriu os móveis e a minha cara, os jornais estão empilhados na porta da frente, assim como as roupas que não vou guardar. o sono me toma e eu prescindo de receitas infalíveis: conversas de bar, filosofias baratas, histórias requentadas nas quais o idiota da vez é sempre o mocinho, o que se deu bem, quando, na verdade, é apenas o mais infeliz dos clowns. quero qualquer coisa que está ao meu alcance e tão distante, quero falar do poço até me esvaziar, quero chorar até perder a voz em soluços, quero um abraço, quero só isso, mas de verdade. o abraço de quem tem coragem de ouvir sem interromper, de quem sabe que essa dor também lhe pertence pelo simples fato de estar vivo e que por ser assim, e tacitamente aceito, não vai se desconcertar diante dela. quero o impossível, eu sei, e não faço concessões. se isso não lhe agrada, me deixe em paz e vá viver a sua farsa de cada dia. cansei de fazer de conta que estou presente.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009






roland barthes. althusser. estruturalismo. harold bloom. bakhtin. chomsky e seu modelo arbóreo. a estética da recepção. punheta. o capote de gogol. octavio paz. ortega y gasset. brecht e artaud e ionesco. pós-estruturalismo. walter benjamin. cu. avalovara. genet. norman friedman e sua tipologia, bem como jakobson. alteridade. terry eagleton, marx e engels. freud e lacan, deus seja louvado, k.g. jung e suas couraças. marilena chauí. roger chartier. formalismo russo. umberto eco. boquete. pavlov e piaget. julia kristeva. escola de frankfurt. pós-modernidade. new criticism. leyla perrone-moisés. calvino. mahabharata. esaú e jacó. estranhamento. baudelaire. todorov. lukács e greimas. positivismo. zola. alfredo bosi. fragmentos de um discurso amoroso. as vanguardas europeias. raimundo carrero. léry. oswald de andrade. os sertões. paulo freire. a náusea. impressionismo. metalinguagem. foucault. lsd. a fabricação da loucura. thomas mann e cortázar. dostoiévski. haicais e infovias. foda. saussure. fernando pessoa. puella parva. leminski. melanie klein e os seios. pqp. neruda. miró da muribeca. gil vicente. picasso. antonio candido. capitu. benveniste. arthur miller. homero. diacronismo. epistemologia. a dança das abelhas. claude levy-strauss. sílvio romero. derrida. cesário verde. norberto bobbio. las venas abiertas de america latina. o cão sem plumas. caralho. o ano da morte de ricardo reis. mia couto. skinner. bukowski. buceta. abnt. j.l. borges. habermas. eros e civilização. o lobo da estepe. duras. o.m. carpeaux. fausto. aristóteles. a divina comédia. clepsidra. poesia marginal. perspectivas. hipertextualidade. porra. edgar alan poe. e. bishop. ontologia, didascálias. pierre lévy. o banquete. édipo rei. deleuze e seus mil platôs. o auto da compadecida. santaellla...

Ai, bora ali tomar uma cerveja? Overdose de papo pseudo-intelectual. Saco cheio mode on.

domingo, 13 de setembro de 2009






E eu que me pensava tão frágil pelo embargo da voz e pensamentos em colisão, fiz daquele arremedo de gente a fortaleza que é o meu constante desmoronar e reerguer-me em várias outras. Por entre as palavras ditas enquanto despedaçava, tracei revisões e recaminhos. Norteei pela minha fraqueza o mapa do que eu não mais percorreria e cheguei, finalmente, a uma paz que se não para sempre, hoje me acolhe e amansa o dia. Ontem, dos uivos em que desprendi remotas dores, tão velhas quanto a mais anciã das pedras, fiz-me água, essência, reencontro. Doravante, sigo meu rumo sem tantos pesos e senões e devo tudo (e ao mesmo tempo nada) ao despudor de mostrar-me, de brigar pelos desmascaramentos, os meus, sobretudo, e de proferir verdades ao mesmo tempo em que esbofeteio minhas defesas. E ao final dessa rinha, suja de lama e sangue, triunfo, sobrevivente que sou de lutas que às vezes sequer me pertencem, mas que não me escuso de travá-las pelo bem do que de mais humano há em mim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009






era noite quando do sono fui retirada, ainda tonta, e não em rota de salvação ou fuga: fui lançada no abismo sem premissas de chão, vertigem sem tempo de nó na garganta, sem anteparo, sem cuspe, sem beijo na boca. fui despejada de mim e lançada na irrealidade do que viria a seguir e para sempre. e saído triunfante das imensidões da agonia e do terror, ele, enfim, se deu a conhecer na crueldade do dia em que eu soube o que era o irreversível. E hoje quando te ouço dizer, num misto de desdém e raiva, que irradio a presunçosa calma de quem já viu tudo, apenas lhe respondo que sim, eu vi. e do inferno do qual retornei, você não merece o relato.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O prestidigitador



Estou começando a entender por que sou um fracasso na existência: nego assiste a dois workshops, dá uma lida nuns três artigos catados no Google, compra um livro de 100 páginas sobre o assunto e depois de um mês morando na filosofia, se intitula Especialista.