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sexta-feira, 20 de novembro de 2009






Sinto falta de tantas coisas, mas, especialmente, da minha vida, a que eu tinha. Antes, quando eu achava que não sabia mais viver sozinha. Eu sei, e isso não me traz orgulho algum. Bastar-se é o caminho mais certo para o embrutecimento: as coisas existem, esbarram-se doídas dentro de mim, mas não me desaguam. Tempos difíceis estes de não sentir, o embrutecimento.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Farsesco






às vezes tudo parece sonho comprido, exaustivo, em preto e branco. as cortinas quebraram, o vinho azedou, a poeira cobriu os móveis e a minha cara, os jornais estão empilhados na porta da frente, assim como as roupas que não vou guardar. o sono me toma e eu prescindo de receitas infalíveis: conversas de bar, filosofias baratas, histórias requentadas nas quais o idiota da vez é sempre o mocinho, o que se deu bem, quando, na verdade, é apenas o mais infeliz dos clowns. quero qualquer coisa que está ao meu alcance e tão distante, quero falar do poço até me esvaziar, quero chorar até perder a voz em soluços, quero um abraço, quero só isso, mas de verdade. o abraço de quem tem coragem de ouvir sem interromper, de quem sabe que essa dor também lhe pertence pelo simples fato de estar vivo e que por ser assim, e tacitamente aceito, não vai se desconcertar diante dela. quero o impossível, eu sei, e não faço concessões. se isso não lhe agrada, me deixe em paz e vá viver a sua farsa de cada dia. cansei de fazer de conta que estou presente.

domingo, 20 de setembro de 2009

Chá das 5








ela? pois sim. tão necessária, centrada, confiável. você, acostumado que está com essas certezas, se soubesse das sombras, do abismo e do pequeno estilete com que ela corta a própria carne, sem lágrimas nem dor, movida ainda, teimosa que é, pela vontade de sentir-se viva, decerto recusaria a xícara de chá que lhe será servida um dia. entre as rendas e a fatalidade, apenas um sorriso breve e toda delicadeza do gesto. a vingança, silenciosa e aguda, travestida na lucidez que a tudo corrói lentamente, espera a hora de mostrar-lhe a trágica e pervertida face.

domingo, 13 de setembro de 2009






E eu que me pensava tão frágil pelo embargo da voz e pensamentos em colisão, fiz daquele arremedo de gente a fortaleza que é o meu constante desmoronar e reerguer-me em várias outras. Por entre as palavras ditas enquanto despedaçava, tracei revisões e recaminhos. Norteei pela minha fraqueza o mapa do que eu não mais percorreria e cheguei, finalmente, a uma paz que se não para sempre, hoje me acolhe e amansa o dia. Ontem, dos uivos em que desprendi remotas dores, tão velhas quanto a mais anciã das pedras, fiz-me água, essência, reencontro. Doravante, sigo meu rumo sem tantos pesos e senões e devo tudo (e ao mesmo tempo nada) ao despudor de mostrar-me, de brigar pelos desmascaramentos, os meus, sobretudo, e de proferir verdades ao mesmo tempo em que esbofeteio minhas defesas. E ao final dessa rinha, suja de lama e sangue, triunfo, sobrevivente que sou de lutas que às vezes sequer me pertencem, mas que não me escuso de travá-las pelo bem do que de mais humano há em mim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009






era noite quando do sono fui retirada, ainda tonta, e não em rota de salvação ou fuga: fui lançada no abismo sem premissas de chão, vertigem sem tempo de nó na garganta, sem anteparo, sem cuspe, sem beijo na boca. fui despejada de mim e lançada na irrealidade do que viria a seguir e para sempre. e saído triunfante das imensidões da agonia e do terror, ele, enfim, se deu a conhecer na crueldade do dia em que eu soube o que era o irreversível. E hoje quando te ouço dizer, num misto de desdém e raiva, que irradio a presunçosa calma de quem já viu tudo, apenas lhe respondo que sim, eu vi. e do inferno do qual retornei, você não merece o relato.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A abelha e a batata






uma abelha sobre uma batata. quase morta, defeituosa. sem tentativa de voo, paralisada. não em maçãs ou uvas ou nectarinas, mas numa comezinha batata. inadequada. será uma abelha mesmo? lenta, indefesa. não reage ao meu olhar. desconfio da sua imobilidade. é uma abelha, alquebrada, mas abelha. preciso de batatas, seis, tamanho médio, boa textura. deslocada. volto àquela batata. a abelha continua como à minha espera. parada. e viva. palpitando, pulsando na sua quase morte de abelha vencida, operária. num movimento impreciso, de quase abelha, escorrega na superfície lisa da sua batata. será esmagada entre as outras. meu medo se impulsiona no gesto: estico o dedo para poupar-lhe a queda. ela me fere, seu último movimento. abelha.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009






O que há? O que foi?, você pergunta diante do meu estarrecimento. É a vida e suas urgências, a vida, a cada dia e longas noites, a vida que espreita, inquieta e pulsa. é a vida, ávida. vida. e não é pouco o que há. não lhe parece?

Cubar o tempo






um dia quero ir à cuba. não por profissão de fé, mas antes pela visão dos fantasmas nas antigas latarias dos carros de havana. meu coração certamente sorrirá para um tempo que parou em cuba.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Corisco






Corisco e a gaita que rasgou uma manhã de julho de terra batida e cheiro de chuva. O lamento da gaita fez desaguar do peito da menina dores sem represa. E ver o mar já não abismava, sua escuridão tirou o impossível de todas as outras.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009






sonhei com L. jovem e desprotegida, seus grandes olhos verdes espreitando a multidão em busca de abrigo. não lhe acenei como sempre fizera. ao contrário, fingi não vê-la por me saber inútil: herdei-lhe os olhos de pousos impossíveis.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Upside down






Insight acachapante durante uma leitura de Bakhtin: ele tratando do dialogismo, das vozes que permeiam as falas textuais e eu relendo as minhas. Como não pude entender antes? E não tive como não lembrar de R.P., cujo primeiro amor descansou no terceiro dia, ou melhor, deixou que ela descansasse - referência escatológica, melhor passar adiante. E hoje falei com E.: tem gente que adivinha chuva e liga no dia certo, na hora certa, na passagem de cometa certa. E quarta tem reunião do CPG, ansiosa, querendo muito ver as meninas, porque essa história de conversa pelo MSN não dá para tapar o buraco da saudade da gente. Eu já vinha preocupada porque as unhas de Mariana não estavam crescendo. Falta de vitaminas? Perguntei se estavam cortando na escola. Não. Mas não cresciam e eu sempre confiro. Domingo ela se entregou: está roendo. Quando não estou fazendo nada. E ficam perfeitas, sem desníveis. Cara, pensei em me preocupar, mas como o geral vai bem, ando dando risada dessa história. Casa de ferreiro, espeto de pau. E casa de ferreira? Sábado na farra, domingo, pai. Farrapai, ressaca certa. Presente do Dia dos Pais? Uma camisa e uma notícia. Pela cara dele, não sei se achou boa ou má. Já me acostumei com a natureza indiferente. Antes, no entanto, doía horrores, daquelas finas que cortam a respiração. Hoje vejo apenas que ele está envelhecendo e eu também. Vontade de deixar o cabelo crescer. Dá e passa. Já pensei sobre o assunto e,
adivinha, a resposta estava lá, prontinha. Só falta juntar com a daí de cima e economizo uns cinco anos de terapia. Receita para uma bad trip garantida: pegue uns hormônios desembestados e junte com uns truquezinhos safados do inconsciente, pronto. E eu não largo o vício. O que mais quero na vida? Objetividade. E metade da escrotice que me atribuem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Não sei de cor






Não sei poemas de cor, embora estejam dentro de mim, prontos para serem ditos.
Não sei poemas de cor, não sei declamar, sei apenas ficar quieta diante deles.
Sou uma blague, uma farsa, um acúmulo desordenado de pés sem cabeça, nem pé nem cabeça nem tronco nem membros, só vertigem em meio ao caos e às vidas alheias, tão exatas e ordeiras.
Respiro o cheiro nauseante de fantasmas antigos, todos guardados, todos prestes a tomar, em motim e dentes, o que lhes é de direito. No entanto, resisto, um pouco a cada dia. Até quando?
Não sei poemas de cor, mas sei um pouco da dor, matéria bruta de que são feitos. E se num dia de sol como hoje, a felicidade me espreita, esqueço a folha em branco e sigo com riso largo, fácil - quem disse que não sei fingir?
Talvez, por isso, eu não saiba poemas de cor: eles fogem de mim porque não me entrego, resisto-lhes. Até quando?

terça-feira, 28 de julho de 2009

Mais uma esquina






o carro se afasta na chuva. uma mão, em adeus, acaricia o vidro. na rua, passos de quem olha e não vê aquele gesto silencioso e último. uma parte fica, a outra vai não se sabe aonde. a rua é cinza, o dia é cinza, o mundo é cinza, a água dissolve todas as possibilidades. o lugar é qualquer um, o imponderável desconhece geografias.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Como se essa rua fosse minha



passos apressados na calçada estreita, suja, esburacada. uma caixa de papelão aberta. os pés desviam, ligeiros: a cama de alguém. como é perversa a lógica do conformismo, sussura o que ainda resta de indignação.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cegamente



Não, não entendo muito de mim nem dos meus avessos, o que é fazer sentido? Dar conta de si enquanto espera a vez na ante-sala do dentista? De pequenos recortes de sonhos nebulosos eu vivo, não preciso de mais nada que me dê um norte, eles me bastam, são suficientes, pois se de olhos fechados, perdida e solta, deixo meus medos e limites de lado, por que não haveria de, em troca, cegamente confiar? Nos olhos ainda há o brilho antigo que se espalhava em pequenas porções de ternura e violência misturadas, quase sempre vividas em desproporção, eu nunca entendi exatidões. Hoje ainda passeiam esses arrepios de menina na pele da mulher que sente as dores e os espantos alheios como se fossem seus, por muitos deles já ter quase vivido. Uma mulher a quem você pensa conduzir com um sorriso terno e condescendente. Essa mulher que também te sorri, sente, no fundo da alma, uma justa e sincera piedade por você, pelo que você esconde, pelo que você teme. E seguirá assim, sem medo de nada que lhe vem de dentro, mas completamente aturdida pela vida lá fora. Ao contrário de você.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Conversinha à toa



Experimente um dia, meu bem, sair de casa sem a roupa de domingo, sem óculos escuros. Deixe o telefone em cima da mesa, saia sem ele. Também não use seu carro, pegue um ônibus e siga um destino qualquer, desconhecido. Olhe para as pessoas, olhe bem, sem receio, você não as verá mais e nem elas a você. Deixe em casa seus discursos, o script pronto, suas racionalizações. Seus compromissos urgentes, seus afetos, todos os planos, deixe-os em casa só por um dia. Esteja só, mas só de verdade. Nada que te prenda, nada que te explique, deixe tudo estar, deixe para trás. Vá sozinho com a cara lavada e a pouca coragem que lhe resta, não importa, mas vá. E leve junto aqueles incômodos que você tenta, a preço de muito suor e dor, esconder. Aí você verá, pelo menos por um dia, que arrogar certezas é conversinha à toa para enganar a vida. E que no final, querendo ou nos esforçando em contrário, somos todos bobagens, meu bem, piadas de mesa de bar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Espelho



Este rosto no espelho me mostra o que se gestou no silêncio, sem que eu me desse conta e a despeito das minhas vontades às vezes tão tolas. Nele vejo, de súbito, a minha ancestralidade. As mulheres fortes e ao mesmo tempo frágeis e pequeninas que fui e serei. Que sempre estiveram em mim, agora mais nítidas do que antes, é certo,
embora o contorno se expanda para além do que vejo, suas sombras e as minhas a um só tempo. E o que eram fantasmas hoje são heranças e conciliações. Hoje eu me vi, enfim.

domingo, 21 de junho de 2009

Seu que era meu



Seus livros de capa dura, seu licor de jenipapo, suas abotoaduras, seu cão perdigueiro, seus óculos, sua poltrona, seus cigarros, sua letra desenhada, seu relógio de bolso, suas revistas Pasquim, seus discos de Cartola, seus ternos brancos e suas calças de risca de giz, seu chapéu panamá... sua voz já quase esquecida, suas mãos trêmulas, seu abraço, seus porres e seus pequenos desatinos... sua espingarda de caça, sua coleção de moedas, a sua menina dos olhos: eu, que esquecida do tempo, continuo lá, parada, na porta da casa, à sua espera.

sábado, 13 de junho de 2009

Fluxo e refluxo



Ontem, o Recife acordou, deu bom dia e voltou pra cama. Tudo alagado. Sou a mais velha do grupo. Têm vinte e poucos anos, e eu me vejo tanto em alguns deles. Céus, como a vida não muda de estação! G., o que não falta no mundo é beleza complexa, de doer, de fazer chorar. E a gente aqui embolando de tanto rir, que falta de respeito e compostura. Ia fazer as unhas ontem cedo, dúvida entre o vermelho e o café. A chuva decidiu por mim. O que é o mito? É uma mentira!, responderam com força. E eu sou obrigada a conviver com isso. Eu sei que abolir o sutiã é libertário, mas depois de uma certa idade, fica obsceno, especialmente se isso acontecer sob uma malha amarelo gema. Pois eu tenho um colar lindo, cheio de bolinhas coloridas, lindo, lindo. Olharam tanto, pegaram tanto, que ele partiu, do nada, quando fui tirar. Só de pensar que ele estava no meu pescoço... hahaha. Às vezes estou até bem lenta, mas nada que me dê paciência suficiente para agüentar um banquinho e um violão. E ter sido backing vocal de I. certamente é ponto mais alto do meu currículo, mas o pior de tudo mesmo é lembrar e ainda passar a informação adiante. As decisões erradas nunca te perdem de vista: você pode mudar de endereço, de penteado, de opinião, mas elas um dia te acham, pode crer. Ah, café, ficou lindo. Posso usar a colcha de retalhos, espero por isso o ano todo, enfim. Aos poucos, a poeira tende a assentar porque ninguém suporta viver tanto tempo pairando sobre si mesmo. Aí é tocar a vida como se toca uma bola de sabão, de leve, e deixar que ela se encarregue do resto, muitas vezes sem tantas sutilezas. Existe outro jeito? O tédio é a forma mais
baixa de renúncia
. Ouvindo isso, desperto.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Brejo da Cruz News



O sorvete de cocada da Fri-Sabor, vício. No mais, estou com Clarice, uma hora esse ensaio sai. Professor super exigente, daqueles bons que deixam a gente meio com receio de decepcionar. Mas aí quando você mergulha em C.L., tudo pode acontecer. Foi assim com Caeiro, eu quase enlouqueço. Eu não posso com a poesia porque ela me devasta. Por isso sou prosa, toda prosa por fora. Já por dentro... Quem sabe de mim sou eu. De noite, antes de dormir, devagar e sempre, O Roubo da História, daqueles que puxam a gente pro mundo real, muito bom, que eu siga em passos de tartaruga, mas siga, vale a pena, indico. Recentemente também o novo de C.B., Leite Derramado. Acho que ele já escreveu com um olho (que olho...) no papel e outro na tela, completamente roteirizável. Hoje acordei com vontade de escrever cartas. Sim, eu ainda escrevo à mão, mas cartas, faz tempo. Deu vontade de escrever para N. e falar que tudo que ela me disse, há mais de 20 anos, ainda cai como uma luva em mim. Uma luva de chumbo, é certo, mas agora é a minha vez de lidar com isso. Vontade de escrever para S. e dizer que o conto vai sair, só preciso ainda entender o enredo, é complicado, mas eu não tenho medo de encarar. E também pra O., dizendo que sinto saudade de tudo e mais dela ainda. Estranhamente não tenho mais vontade de brigar por coisas que, um ano atrás, me tirariam do sério. E não falo só de ninharias, não, mas de situações que costumavam perturbar meu sono. Só não sei ainda se isso é bom ou ruim. O bebedouro dos passarinhos rachou e não achei outro para substituir. Há duas semanas tem uma vasilhinha de plástico com água e açúcar sendo trocada todos os dias, na varanda. Só hoje eles atinaram com a existência dela. Bichinhos burrinhos. Depois das férias, fazendo isso por quase um mês, outro vício: corrida. De manhã cedo, com o vento gelado doendo nos ouvidos nos cinco primeiros minutos, depois, vício. Eu, chocólatra assumida, ando virando a cara pro chocolate. Estão se apossando do meu corpo e não sou eu, socorro! O mundo está cheio de gente doente, de pino solto, sei lá, tenho me deparado com tanta patologia ambulante que dá medo. A última foi uma que me deixou de cara, nossa, levei dois dias pra realizar o que aconteceu. Realizar mesmo porque o troço foi pra lá de realismo fantástico. Por isso que quando me falam que eu vejo chifre em cabeça de cavalo, concordo na hora. E se você procurar direitinho, acha, vá por mim. Meu mp3 está macumbado, liga e desliga sozinho. Vou pedir a M. que refaça a minha numerologia, desconfio que trocaram a senha do meu karma. Por que é que a maioria dos meus amigos está ficando careca? Depois de mais de 20 anos sem vê-lo, S.S. vai voltar para o Brasil, mais especificamente para Recife e, mais especificamente ainda, vai ser meu vizinho. Contando os dias. Fico feliz por mim, já por ele... Mais pela cidade, ele sabe, que anda ruim das pernas, benza deus. E ele também está quase careca. Mas esse não pode se queixar da água da Compesa, rá. Vontade de comer bolo de macaxeira, vi e não comprei. Hoje, sim, mas não estava bom, castigo, essas coisas precisam ser na hora. E eu esperando pelo improvável. Sentada, porque em pé cansa.