domingo, 17 de maio de 2009

Instantâneo



(Cais José Estelita, Recife)


Meio-dia
sol a pino
céu azul de poucas nuvens
maré baixa, maré lenta
meio peixe, meio homem
o pescador arrasta a rede

se houve peixes, não sei,
segui em frente, quase à força
empurrada por minhas monotonias

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Confissões aborrecentes de uma mariazinha






Está todo mundo ouriçado com a entrevista que Maria Mariana, aquela com cara de pintinho ciscando no lixo, que escreveu o idiota Confissões de adolescente, deu para a revista Época. Qual o espanto? Por que a indignação diante das falas da moça? Já não era de se esperar que sandices como as que ela falou na entrevista pudessem sair de sua cabecinha? Se a idéia de casamento dela é entender o ato de catar as cuecas deixadas no chão pelo marido com uma prova de resistência e paciência, se ela acha que amamentar é merecimento, que depressão pós-parto é castigo, que é o parto normal que confere à mulher a condição de mãe e mais umas tantas imbecilidades que quem quiser pode ler aqui, tudo isso é problema dela, ora.

Se alguém quiser comprar o livreco onde ela elenca seus insights esquizóides, azar. Eu acredito na possibilidade e na existência de espaço para qualquer um falar o que quer. E não entro mais - ou tento não gastar energia à toa - em polêmicas vazias. De um lado, uma criatura falando bobagens. Do outro, um alguém refutando seus argumentos. Um querendo sobrepor o seu discurso ao do outro. Cada um querendo demonstrar por A+B que o seu ponto de vista é o mais acertado, engajado, ajustado, politizado, humanizado, original, revolucionário... Pra quê? Isso muda em que medida o fato de a moça encontrar quem lhe compre o livro e a tosquice das suas idéias? E se alguém comprar e gostar e aplicar as teorias marianísticas à sua vida e se sentir bem? Será um ser obscuro a mais, que não conhece a luz, o jogo ideológico que subjaz ao texto, que não terá futuro? Ai, isso me dá sono.

O fato é que já não me espanto com coisa nenhuma que vejo, ouço ou leio. É simples e nem dói: você vê, ouve, lê. Estabelece relações pessoais e intelectuais com o que vê/ouve/lê. Se houver cabimento, elucubre sobre o assunto. O que você viu/leu/ouviu compensou o seu empenho físico (sentar a bunda numa cadeira em frente a um computador, por exemplo) e intelectual? Caso positivo, acrescente esse novo saber ao seu conhecimento de mundo e à forma como você atua nele. Negativo? Não perca mais tempo, simplesmente boceje e siga em frente.

Amarrando o bode pela boca



Ontem comi açúcar demais, resultado: acordei de bode, mal-humorada, irritada, lenta. Não sei como alguém pode se entupir de doce e achar isso normal, não sentir nada. Tinha um amigo que, no seu tosco radicalismo macrobiótico, sempre me perguntava se eu queria gozar pela boca. Ele é que estava certo. E eu não aprendo nunca.

domingo, 10 de maio de 2009

Palavras






(Nunca fui feita de silêncios e se algum dia disse o contrário, enganei mais a mim do que a você, por algum propósito, mesquinho, ou por me querer sozinha, ao largo).


Palavras silenciosas, ditas, mal ditas, pensadas, caladas e proscritas.
Com palavras e mesmo na ausência delas, parafraseio o mundo
nomeio, mesmo que imprecisamente,
aquilo que sinto, vejo e desconfio.
E daquilo que desconheço a carne, a feitura e as urgências, vasculho entre as palavras que tenho,
um modo menos árido de lidar com as estranhezas.
Com palavras fujo da loucura, da incipiência, das longas horas, dos dias curtos, do que é do outro e me tira o sono
quando pretendo entendê-lo.
Palavras unidas a outras palavras, encadeadas, com pretensões de fazer sentido.
Ou palavras jogadas numa superfície qualquer, desde que plana.
Palavras como dados
E mesmo misturadas, confusas e desligadas,
sempre um fio se acha que as condense, que as faça frase, expressão de algum sentido ou de um desatino estudado.
Porque palavra é intenção. E intensidade. Para cima ou para baixo, monossilábica de pressas
ou desejante de um tempo maior que as faça eco.
Palavras são pretextos
textos e contexto
Mas sempre palavras, palavras, palavras
Eu, que sigo nomeando meu ao redor de quase certezas
Não acho às vezes palavra certa,
aquela uma, única, que preencha o escuro da minha mudez
E aí me perco, lanço ao mar tarrafa e esperas
E mais palavras vêm, generosas, intrometidas, desabusadas,
E mais eu me afogo no emaranhado das suas pernas, dos seus sexos, dos seus apelos, da sua parentença
Aí me calo, me fecho e levo-as todas
E na toca que é a armadilha do meu silêncio
Eu as trituro, disseco, devoro e descarto
E volto a ser eu
Um ser cheio de palavras
mas de muito pouca exatidão.

sábado, 9 de maio de 2009

Green Wheels






Nessas férias, vi um projeto muito legal na Holanda, que se chama Green Wheels - não sei se outros países o adotam. Pelo que entendi, o esquema é o seguinte: os carros, facilmente identificáveis como vocês podem ver acima, são usados por associados que, ao aderirem ao programa, pagando, claro, recebem uma identificação e um cartão, o qual é utilizado como chave desses carros. Para utilizá-los, o cliente liga ou consulta o website do grupo informando sua localização para que saiba onde está o veículo mais próximo. Depois de usar o carro, é só deixar no mesmo local. Legal, né? Uma excelente alternativa para quem precisa mas não deseja comprar um carro e ter a preocupação de conseguir um local para guardá-lo, pois nem todas as moradias têm garagem e, quando têm, muitas vezes são vendidas como um imóvel à parte (bem carinho, por sinal). E nem se está falando nos impostos e manutenção do carro...

Ah, o cartão também dá direito a abastecer sem pagar porque a gasolina gasta no percurso é debitada na mensalidade do seu pacote.

sexta-feira, 8 de maio de 2009



Escovei os dentes com Hipoglos. E o dia está só começando...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Notinha de esclarecimento



No post de ontem, não me referia aos políticos de carteirinha e às chuvas do NE. Estava, umbilicalmente centrada, falando em outro tipo de cerumano, político por natureza, mas não por profissão, aqueles de quem, por um motivo ou por outro, a gente depende, por mais ativos, altaneiros, empreendedores, virados na febre tifóide que sejamos. Sim, tem coisas que não dependem do nosso aguerrido esforço, mas, sim, da boa vontade alheia. Era a isso que eu me referia. E antes que chegue alguém dizendo que eu reclamo de barriga cheia, já mando, de antemão, à merda. Porque o fato de eu ter feito uma viagem muito legal, com zero de incidentes, tudo nos conformes e até além do esperado, não anula a existência de milhões de pepinos na volta e ter também de lidar com atitudes de pessoas que eu, estando no lugar delas, jamais tomaria. Simples. Além do mais, está na minha natureza reclamar. E muito. E ainda vou reclamar mais até a minha chateação passar. Melhor assim do que voar no pescoço de alguém, concordam? E tenho dito.