
(Nunca fui feita de silêncios e se algum dia disse o contrário, enganei mais a mim do que a você, por algum propósito, mesquinho, ou por me querer sozinha, ao largo).
Palavras silenciosas, ditas, mal ditas, pensadas, caladas e proscritas.
Com palavras e mesmo na ausência delas, parafraseio o mundo
nomeio, mesmo que imprecisamente,
aquilo que sinto, vejo e desconfio.
E daquilo que desconheço a carne, a feitura e as urgências, vasculho entre as palavras que tenho,
um modo menos árido de lidar com as estranhezas.
Com palavras fujo da loucura, da incipiência, das longas horas, dos dias curtos, do que é do outro e me tira o sono
quando pretendo entendê-lo.
Palavras unidas a outras palavras, encadeadas, com pretensões de fazer sentido.
Ou palavras jogadas numa superfície qualquer, desde que plana.
Palavras como dados
E mesmo misturadas, confusas e desligadas,
sempre um fio se acha que as condense, que as faça frase, expressão de algum sentido ou de um desatino estudado.
Porque palavra é intenção. E intensidade. Para cima ou para baixo, monossilábica de pressas
ou desejante de um tempo maior que as faça eco.
Palavras são pretextos
textos e contexto
Mas sempre palavras, palavras, palavras
Eu, que sigo nomeando meu ao redor de quase certezas
Não acho às vezes palavra certa,
aquela uma, única, que preencha o escuro da minha mudez
E aí me perco, lanço ao mar tarrafa e esperas
E mais palavras vêm, generosas, intrometidas, desabusadas,
E mais eu me afogo no emaranhado das suas pernas, dos seus sexos, dos seus apelos, da sua parentença
Aí me calo, me fecho e levo-as todas
E na toca que é a armadilha do meu silêncio
Eu as trituro, disseco, devoro e descarto
E volto a ser eu
Um ser cheio de palavras
mas de muito pouca exatidão.