sábado, 28 de junho de 2008

Cotas na Educação



Bruno Costa perguntou qual é a minha opinião sobre as cotas para os negros nas universidades. Antes de falar sobre o assunto, gostaria que vocês dessem uma olhada neste vídeo (curtinho, um minuto e quarenta segundos) e pensassem no caso.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Preconceito - Conte a sua história



Kenia,nunca fui vítima de preconceito racial porque tenho a pele e os cabelos claros (agora branco mesmo) mas fui vítima de preconceito social.
Vim de uma família muito pobre mesmo.Pra você ter uma idéia,nosso pai (somos em sete) não tinha sequer dinheiro para nos comprar sandálias de tiras,mas fez questão que todos os seus filhos fossem para a escola.Não conto as vezes em que fui descalça ou com sapatos maiores que os meus pés ou furados. Mas consegui concluir meus estudos e em seguida fui morar com uma tia que tinha melhores condições financeiras e assim pude entrar na universidade e concluir o curso de Pedagogia.Mas em troca dessa possibilidade,quase todo o serviço doméstico ficava ao meu encargo,muitas vezes só conseguia estudar e fazer os trabalhos do curso de madrugada.Mas o importante é que consegui.
No fim do meu curso,conheci um rapaz que se tornou o pai dos meus filhos. O que poderia ser uma história de amor como outra qualquer,se tornou um verdadeiro inferno porque o rapaz pertencia a uma familia tradiconal da cidade que jamais admitiu que uma moça pobre fosse a escolhida pelo filho.Mesmo eu tendo todas as qualidades que muitas vezes as moças do seu nível social não tinham,fui rejeitada.Até dinheiro para sair da cidade me ofereceram.
Quando perceberam que não adiantava,fingiram aceitar a minha presença e aí eu acho que veio a pior parte:fui humilhada,a cada oportunidade faziam questão (minhas cunhadas e sogra) de mostrar como eu não pertencia,como destoava daquele meio.
Depois que nos casamos,poucos familiares nos visitavam espontaneamente e aí vi quem realmente gostava de mim.
Passaram-se muitos anos, vieram os filhos e os netos. Nosso casamento acabou pelos desgastes naturais que muitas relações passam.
Não posso dizer que perdoei todas as humilhações,indiretas e brincadeiras de mal gosto,por mais que você viva,cresça e amadureça,certas feridas vez por outra reabrem com muita intensidade.Hoje consigo conviver com alguns parentes que me hostilizaram,muitos deles hoje falidos,com problemas de saúde física e mental,em um caso dependendo apenas de mim e dos meus filhos para ter notícias do mundo.Não me vanglorio disso,mas a vida dá voltas. Ser vítima de preconceito é horrível.E o preconceito social é uma das faces mais terríveis porque ele pode ser disfarçado e muito bem.


De Ivette Góis via email.

Você já foi vítima de preconceito?

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A cor da pele






Morei cinco anos em São Paulo capital e muito me espantou saber que lá sou considerada morena. Estávamos numa brincadeira de amigo secreto e a pessoa que me tirou descreveu-me como sendo morena e de óculos. Como na turma havia outras pessoas com essas características, nem me toquei. No final, quando todas as pistas foram dadas e eu apontada como morena, de óculos e lerda, finalmente entendi. Lá, você pode ser transparente, mas se seu cabelo for castanho, você será moreno(a).

Sempre fui chamada de galega: na infância tive cabelo bem claro, mas à medida que fui crescendo, ficou castanho mais para escuro. E aqui é assim: branco é quem tem a pele clara. Com exceção de ruivo, o cabelo pode ser de qualquer cor.

O fato de ter sido chamada de morena não me incomodou de forma nenhuma, apenas me causou espanto porque durante os trinta anos que morei em Pernambuco sempre fui branquela, galega, loura. E claro que também tinha os xingamentos: branca azeda, macaxeira (mandioca ou aipim) descascada, prato de papa. E quando de saia ou shorts, a pergunta sem graça Onde você comprou essa meia branca? era recorrente.

Se isso me chateava? Claro que sim. Mas uma coisa é ser chamada de branquela e poder responder na bucha que, se eu quisesse e gostasse de apanhar sol, poderia ficar bronzeada. Isso no litoral, onde as praias estão à disposição e não estar com a cor do verão é certeza de ser olhado como gringo ou branco azedo mesmo.

Já no interior, a coisa muda de figura: ser branco é sinal de prestígio, de privilégio social, a idéia de não precisar queimar a pele em trabalhos braçais confere, mesmo que inconscientemente, a explicação para a valorização da pele branca.

Estou escrevendo isto para retomar o último comentário que deixei no post sobre o button de Obama: O bom mesmo seria saber como se sente alguém que é alvo constante de piadas: um negro, por exemplo. Será que ele leva assim tão na boa? Porque é muito fácil tirar uma gozação de letra quando se faz parte de uma minoria privilegiada...

É fácil ser chamada de branquela por alguém, seja de brincadeira ou mesmo por raiva, uma vez ou outra, mas não sistematicamente. No entanto, nunca fui hostilizada, mal tratada e discriminada por causa da cor da minha pele. Outra coisa é constatar, por exemplo, que se eu e um negro formos pedir uma informação, quase que certamente eu serei mais bem tratada por ser branca. Isso, sim, é ser vítima de preconceito.



Fotografia: Flickr

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Unplugged



Quatro dias com o celular sem sinal, sem internet, sem TV a cabo, sem o barulho da cidade. Voltar ao ritmo agora está meio difícil, mas bicho urbano que sou, logo, logo reaprendo a não viver sem eles.

A sede da fazenda:





A casa-grande:








O interior da casa-grande:











A casa de lazer (antigo estábulo):







sábado, 21 de junho de 2008

Olha pro céu, meu amor...






Daqui a pouco escaparemos do mar de fumaça em que Recife se transformará nos próximos dias. Especialmente no bairro em que moramos, a sensação é de estar no meio de um fogo cruzado, quase igual à saraivada de fogos da passagem de ano, só que sem hora certa para começar.
Seguimos para os matos alagoanos em busca do sossego acima, comidas de milho, vinho e ócio não necessariamente criativo. Na verdade, preciso descansar um pouco mesmo.

Não deixem de comentar no post sobre o button, que está realmente muito bacana por conta das opiniões de vocês.

Um bom São João pra todos.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Brincadeira republicana e racista






Button vendido numa convenção do Partido Republicano, no Texas.
O vendedor, que foi proibido de aparecer nas próximas convenções e teve a venda do seu produto proibida, alegou que tudo não passava de brincadeira. De péssimo gosto, diga-se de passagem.

Infelizmente, a fonte é um jornal holandês. Quem quiser tentar, veja aqui.

Update: Alex fez um comentário sobre o que pode ser considerado brincadeira ou não, e isto realça a questão do politicamente correto que vem transformando a linguagem num verdadeiro campo minado:

Ah discordo da tua observação! Antigamente muito se podia brincar com a raça e com o sexo que toda a gente se ria, Hoje, ser humorista é difícil. O que quer que ele diga, tem que ter muito cuidado, porque logo, logo, pode ser condenado em tribunal por racismo, xenofobia, etc, e ainda ter que pedir milhões de desculpas até ao fim dos seus dias.
Hoje em dia não podemos chamar "preto" a ninguém, porque somos racistas, mas quando eles nos chamam "brancos" é natural e não há qualquer tipo de racismo.
Acho isso um preciosismo. As pessoas têm o direito de brincar, contanto que não passe de brincadeira. Essa de apelidar a ideia do button de racismo não faz sentido, sobretudo porque a Secretária de Estado para a diplomacia do Republicano George W. Bush é a "negra" Condoleezza Rice. Fala-se, inclusivamente, que o Vice-Presidente de John McCain terá descendência latino-hindú.
Por tudo isto, acho que este é mais um dos casos em que as coisas tomam uma dimensão maior do que aquela que realmente têm. Não vejo racismo. Vejo uma brincadeira e vejo política. Da mesma maneira que vejo os cartoons dos apoiantes de Obama contra John McCain.



Alex, também acho que a turma do politicamente correto exagera e não é pouco. Uma vez, num blog da vida, a discussão era se a palavra neguinho, usada assim, por exemplo: Neguinho não quer saber se você fez ou não tal coisa, traria uma carga racista. Eu costumo usar o termo em situações nas quais o neguinho em questão, substituindo a palavra fulano, nem sempre está em contexto desfavorável ou negativo, como o escritor do blog pretendia fundamentar e provar. Aí, fazer o quê? Ao invés de usar a palavra neguinho, de sacanagem, passo a dizer: O afro-descendentezinho e coisa e tal? É um exemplo da brochada lingüística e do radicalismo que essa turma quer impor.

No caso do button, acho que a coisa não é por aí. O vendedor alegou que era brincadeira, o que mais ele poderia dizer? Se bem que nem entre seus pares republicanos, brancos e texanos (atente para este contexto que ele diz muito!), a piada foi considerada engraçada pelo simples fato de só ter vendido 4 unidades, sendo duas destinadas à imprensa.

Também entendo que as piadas muitas vezes carregam em si mensagens preconceituosas, explícitas ou não, e quase sempre as ironias e depreciações estão direcionadas às minorias: mulheres, negros, homossexuais, judeus etc., cada época, lugar e situação(política) determinando o alvo da vez. A incorreção faz parte da natureza da piada, o que eu posso fazer é gostar ou não. Ouvir e rir ou reclamar e sair fora.

Mas comprar a piada, neste caso, o button, e pregar na minha blusa, mochila ou onde me der na telha já são outros quinhentos, não?
Sem contar que ter um negro na presidência dos EUA deve estar fazendo muito eleitor branco, conservador e hillbilly tremer nas bases...

Update 2: De Rocher Chadel via email:

Claro que é racismo. O sujeito ser proibido de aparecer nas próximas convenções é pouco. Merecia ser punido exemplarmente. E se fosse a Hillary a escolhida, ele diria o que? Chamar a Casa Branca de cozinha?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Falta de assunto



É viagem minha ou falta assunto para a imprensa? Sim, porque fazer da fuga das adolescentes patricinhas-revoltadas de São Paulo a bola da vez já está ficando ridículo. A impressão que fica é que, na falta de alguma tragédia escabrosa e classe média, o melhor a fazer é transformar o episódio das meninas mimadinhas em uma novela. No próximo capítulo, o seleto público saberá se elas têm um relacionamento homossexual ou não. Ai, ai...
Agora, quando a notícia é sobre a tortura (amputação de mãos e perna) seguida de morte dos três rapazes entregues aos traficantes pelo tenente do Exército e seus subordinados, não rende, fala-se da ocupação do morro pelo Exército, do encontro seguido pelo abraço protocolar e condescendente do Ministro da Justiça em uma das mães, mas sobre os rapazes, nada, vão virar estatística. Por quê? Porque eram negros, pobres e favelados. E isto interessa a quem, ora?