sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Arrumações

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Ainda sobre a novela de arrumar gavetas, armários e locais passíveis de virar buracos negros.
Comecei quarta-feira passada com toda motivação e garra de que é capaz uma pessoa alérgica, porém consciente da urgência logística e psicológica de tal empreitada.

Pois bem, antes de começar a tecer quaisquer considerações sobre essa aventura assaz empolgante e mística, descobri um truque legal pra evitar os espirros e a coriza que geralmente seguem essas incursões com cheiro de naftalina no final: sempre que sinto que as mãos estão começando a ficar sujas, lavo com bastante sabonete líquido. Porque, além do ar abafado e bolorento, o que pega mesmo é quando o nariz coça e os dedos vão lá socorrê-lo, levando junto poeira, ácaros e todas essas coisinhas miúdas que vão roendo, comendo, arrasando aos poucos o meu ideal do que seja uma fisionomia relativamente apta a ser vista por quem está por fora do riscado.

Assim foi e tem sido porque ainda não acabei: uma verdadeira lição de vida travestida em roupas velhas, perfumes, cremes e remédios vencidos, sapatos sem uso, bolsas sem serventia, anotações e quinquilharias acumuladas ao longo desses anos por pura preguiça de jogar fora ou algum significado oculto que, de tão distante, eu já nem sei qual é...

Na hora do descarte, as dúvidas surgem: será que não vou mais usar mesmo? E se eu emagrecer? E se eu engordar? E se a moda voltar? E se eu realmente não quiser esquecer?

Mas tenho ido em frente, vencendo barreiras e obstáculos rumo à vitória da praticidade e da assepsia, pois mesmo depois de anos, ainda ouço o comentário de uma certa pessoa que um dia me fez ver, de chofre, o tipo de pessoa que sou. "Ela guarda roupa de quando tinha 12 anos." Uma mentira deslavada, mas que mexeu com o meu orgulho, que se fere com uma rapidez incrível.

Sempre soube que as mudanças na minha vida começam pelas gavetas e armários. O danado é que nesses anos não tenho querido mexer neles. Sei que preciso, mas como a última quase acabou com a minha raça, fui protelando por puro medo. Agora não... Acho que quando se chega aos quarenta, a perspectiva do 'ou dá ou desce' perde a conotação sexual e se transforma num lembrete luminoso e insistente avisando que a vida inteira pela frente é mais a força de uma expressão do que uma medida de tempo propriamente dita.

E cá estou eu. Com tudo quase pronto, sem sinal de alergia (toc toc!) e me sentindo um bocado mais leve como sempre ocorre nesses momentos. Cada um se alivia como pode -- armários cheios de tralhas e gavetas abarrotadas de papéis, roupas, pequenos objetos e afins são a minha garantia de sanidade. Por ora, não poderei mais ser acusada de malocar a vela do meu batismo. Mas como também tenho os meus segredos, reservei um espaço bem modesto pra guardar algumas coisinhas sem as quais eu acho que não vivo. Veremos se elas sobreviverão ao próximo saneamento básico, seja lá quando for.

4 comentários:

Anônimo disse...

Engraçado... nunca havia olhado sob a perspectiva da mística rssss
Qto à roupa de 12 anos, ah essa eu queria ver pra constatar a fibra e a resistência- da roupa e da dona -:)
bjão

Fábio Barros disse...

Mais uma pro crube dos alergicos... :)

Eu evito fazer essas arrumações por conta disso, mas tem horas que tem que ser.

De vez em quando, eu uso uma máscara pra proteger o nariz e a boca. Funciona e não é tão caro.

Kenia Mello disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kenia Mello disse...

Vou usar uma máscara de carnaval, modelo cramunhão, que tenho aqui em casa. Nem que seja de susto acabo com os ácaros. Hehehe