quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Recife tem encantos mil...



Uma caminhada ontem no calçadão de Boa Viagem, no fim da tarde, deu-me uma pequena amostragem, amadora a mais não poder, do tipo de turista que vem para a nossa Veneza Brasileira.

Pelos fragmentos de conversas que ouvi, eram alemães, italianos, franceses e, claro, argentinos. A grande maioria já bem entrada nos quarenta e bote força. É verdade que havia casais também, mas aí a faixa etária já era mais diversificada: casais jovens com e sem filhos, outros, já na meia-idade. Mas, de verdade, o turista típico daqui seria algo como: europeu, vermelho-camarão, desacompanhado (até pelo menos descer do avião) e a caminho da idade do lobo.

Aí fico me perguntando (já sabendo a resposta): o que procura um gringo solitário, na casa dos 40, 50 anos, numa terra quente, de praias cujas águas são um convite a não sair mais e onde a pouca roupa abunda -- em todos os sentidos? Turismo sexual, claro. E de baixo custo. E pedofilia.

Não que esses caras vão procurar as meninas em suas casas. Elas já estão ali, montadas, caricaturadas de veterenas, mas com o frescor que atrai e cuja duração será reduzida pelo uso indevido.

Uma cena, em particular, chamou a minha atenção: uma mulher com uma criança no braço conversa com um gringo que está sentado junto a uma barraca de coco. Ao lado da mulher, e bem na frente do homem, uma menina de seus 11, 12 anos ajeita seus shorts de lycra. Tem um piercing no nariz e dá uma risadinha meio tímida meio marota.O gringo não tira os olhos dela. A baba quase desce. Repugnante a cena. Dá pra ver pela expressão do cara o que lhe vai na cabeça.

Essa mulher poderia estar esmolando. Mas também poderia estar negociando o programa da própria filha. E se assim for, ela tem de agir rápido, pois daqui a pouco a menina vai estar tão usada quanto qualquer outra e o seu poder de barganha vai decrescer.

Lembro da cidade há trinta anos, na minha infância. Claro que havia população de rua, desabrigados das cheias, pedintes. Mas também lembro que havia datas específicas para que os transeuntes tomassem ciência da desgraça alheia: no Natal, por exemplo, época em que as pessoas que podiam consumir iam ao Centro fazer as compras natalinas, encontravam-se famílias inteiras, sob as marquises, pedindo esmolas. Mas eram as esmolas do Natal. A maioria dessas pessoas tinha um casebre, um barraco que fosse para voltar no fim do dia. Lembro que eu costumava juntar brinquedos, tipo esses brindes que vêm nas lembrancinhas de aniversários infantis, colocá-los em sacolas plásticas e entregar às crianças que encontrava a caminho da Viana Leal, loja onde eu escolhia o meu presente de Natal.

O cenário da cidade começou a tomar o corpo que tem hoje, pelo que me lembro, há uns vinte anos mais ou menos. Cada vez mais crianças e adolescentes vivendo nas ruas. Em cada esquina, construçâo abandonada, sinal, circuito de prostituição, lá estavam eles. E nada foi feito. E deu no que deu.

Fico pensando no que a Prefeitura do Recife fez e tem feito nesses dois mandatos consecutivos para solucionar o problema. Sim, porque essas Casas de Passagem são uma verdadeira piada. Havia uma aqui perto de casa. Certo dia, umas 9 da manhã, pude comprovar a sua eficiência. Uma menina magra usando roupas da night, totalmente suja, com cara de sono, batia no portão da Casa com a sua sandália de plataforma: "Abre essa porra!" E não é que abriram a porra mesmo?! Quer dizer, vira a noite e depois vem dormir durante o dia na Casa de Passagem. Legal, passagem feita.

Às vezes, quando amontoa muito e dá na vista, a polícia aparece e recolhe os menores, mas, passado algum tempo, ou eles voltam ou arrumam um novo ponto. E assim o tempo passa, a barriga das meninas nos sinais cada dia cresce mais e vamos todos vivendo da forma que nos é possível.

Claro que Recife é uma cidade bacana, cheia de lugares legais pra se visitar, o Carnaval é multicultural e o meu maracatu é da Coroa Imperial. Mas também é uma cidade suja, violenta e mal cuidada. Não dá para fechar os olhos e simplesmente deixar o frevo rolar...

6 comentários:

Divinius disse...

A luz que te deixo é da cor da minha vida..)
Gostei de ler...

Expedito Paz disse...

É complicado administrar... a fiscalização tem que vir das autoridades, mas da população também; até porque não dá pra impedir os gringos de vir pra cá, né?

Anônimo disse...

E como é complicado o trabalho de ressocialização dessas adolescentes...Viver na rua do jeito que querem e depois ter que se submeter as regras.è complicado...Mas todos têm q fiscalizar mesmo,isso nunca deixará de existir,infelizmente.

Bjos e []s

Ivette Góis

Anônimo disse...

Consideranto todo o contexto, mas atenta em especial a um certo parágrafo, reafirmo o quanto é nojento, repugnante e triste esse LAMENTÁVEL quadro que SE EXIBE na nossa cidade, principalmente aqui em Boa Viagem, e que se acentua nessa época do ano e mais especificamente no período carnavalesco. Sempre que vejo cenas como essa, eu sinto que eles vêem nossa cidade como um enorme puteiro, o que me deixa indignada! E principalmente porque do outro lado da proposta arrogante, há um quê de indefeso nessas meninas/mulheres totalmente sem códigos.
E o pior de tudo é que percebo o quanto sou co-responsável por tudo isso pela minha passividade e omissão. Precisamos tomar medidas efetivas para coibir tais atrocidades, pois se formos esperar pelas autoridades, principalmente nessa época do ano, nunca vai haver uma medida drástica, já que seria uma ameaça aos "cofres", daí a preferência por campanhas hipócritas do tipo use camisinha... e "foda-se".
Perdão pela expressão, mas indignada não dá pra dourar a pílula.
Parabéns pelos seus textos, sempre em momento oportuno, claro.
Beijos,
Regina

Renata disse...

É triste a realidade de uma cidade onde o turismo sexual é um ponto forte, como vc falou, uma verdadeira vergonha numa cidade de contrastes: a sua beleza natural, a simpatia do seu povo, a riqueza cultural seja na gastronomia regional seja na criatividade dos artistas que temos aqui em contrapartida com a pobreza vergonhosa que assola a cidade e assusta a todos nós...
Parabéns Kenia, pelo seu texto crítico e muito bem pontuado!
Renata Komuro - arquiteta.

Anônimo disse...

Só tenho a aplaudir, porque voce escreveu exatamente o que observo e penso, é um caso sem controle uma vez que muitos casos tem conivencia dos pais, uns por ignorancia outros para matar a fome e por aí vai... e cidade suja, violenta e mal cuidada... é a pura verdade, Como diz Boris Casoy: é uma vergolha!