segunda-feira, 10 de março de 2008

Cassimone

Depois que li e me encantei com o Horácio da Fal, lembrei de um episódio galináceo da minha infância, que me serve de lição para a vida inteira.

Meus avós maternos tinham amigos que moravam numa fazenda próxima à Custódia, cidadezinha do sertão pernambucano. De modo que todo São João era costume viajar para lá. Eram dias maravilhosos. Meus avós eram padrinhos de três dos sete filhos do casal, Maria e Fabrício, que eu chamava carinhosamente de Comadre Coroquinha e Compadre Fabrício, esse sem muita proximidade porque ele era do tipo sério, vaqueiro, não muito chegado a interações com uma criatura do meu tamanho.

Os filhos de Comadre Coroquinha tinham idades variadas. Dois deles brincavam comigo, eu tinha uns seis, sete anos. Eram Bosco e Verônica. Os mais velhos que nós, mas nem tanto, eram nossos objetos de azucrinação. E assim passávamos esses dias: meu avô e Compadre Fabrício faziam longos passeios a cavalo tangendo o gado, enquanto minha avó e sua comadre cozinhavam toda sorte de comidas de milho - canjica, pamonha, mungunzá, bolo de milho, broa - e falavam da vida.

Já eu corria com meus dois companheiros pelas capoeiras, perseguia galinhas, abria porteiras e cancelas, arruinava a casa de madeira que Bosco tentava construir atrás da casa grande, ajudava a catar lenha para a fogueira de São João e mexia nas malas da minha avó à procura dos fogos - traques de massa, peidos de véia, chuvinhas e bombas - que havíamos trazido para a noite de São João.

Como eu estava de férias escolares e meus avós eram aposentados, nossa permanência se estendia por mais uma semana depois dos festejos juninos. Eu vivia num paraíso particular, cercada de espigas de milho - adorava brincar com as verdes, que Verônica chamava de bonecas por causa do cabelinho loiro delas -, das cabras com seus cocôs de bolinhas, do frio cortante do início das manhãs que fazia sair fumacinha da boca, do calor do meio-dia, da terra seca e da grande liberdade que eu gozava em meio aos arreios dos cavalos, ao mobiliário rústico e utilitário da casa e ao esquecimento das regras de boa educação às quais eu era submetida o resto do ano.

Mas o dia de voltar para casa chegava e sempre cedo demais, na minha quase nunca ouvida opinião. Como lembrança dos dias sem lei e sem ordem, Comadre Coroquinha me presenteava com uma franguinha. E me dizia que queria que eu trouxesse, no ano seguinte, uma foto da futura galinha pra que ela visse se eu estava tomando conta direitinho. Foram três ao todo, e a todas inventei e dei o nome de Cassimone. E não houve fotos nos anos seguintes...

A primeira Cassimone, muito tímida e medrosa, viveu sua curtíssima vida escondida no nosso quintal, mal dávamos por sua presença. Acho que ela sofria de banzo, a vida na cidade era muito barulhenta, creio. Pois na primeira oportunidade, Cassimone, intuitiva que só os sertanejos, aproveitou o descuido da porta de entrada estar aberta, correu sem obstáculos a casa toda e, já na rua, foi atropelada. Morte fulminante e sem propósito: de tão esmagada que ficou, não dava sequer pra panela.

A segunda Cassimone teve uma existência pacata de galinha conformada. Adaptou-se bem, comeu milho, bebeu água, não era afeita a carinhos, mas também não tinha medo das pessoas da casa. Seu sumiço foi meio nebuloso, mas hoje sei que ela foi uma das nossas refeições de domingo. Não se falou no assunto nem eu quis perguntar.

Já a terceira Cassimone era exuberante, extrovertida, abusada. Diria que era uma franga além do seu tempo. Destemida, não se contentava apenas com o quintal. Caladinha, passeava pela sala, quartos, copa e cozinha. A única coisa que entregava a sua audácia era o rastro de fezes que deixava por onde passava.

Minha avó começou a se aborrecer com a galinha, mas como ambas tinham personalidade forte e minha vó secretamente respeitava quem a peitasse, Cassimone seguiu reinando. No entanto, o preço dessa quebra de braço era cobrado dia após dia: Dona Nau reclamava demais da galinha - sim, Cassimone cresceu, castanha e independente - e nós não agüentávamos mais tanta falação: essa galinha não pára de sujar a casa, nem um dia sequer ela fica entupida...

Um belo dia, já farta de tanta reclamação, decidi acabar com o problema. Se um dia fosse o suficiente para acalmar os ânimos da minha avó, que assim fosse. Como conseguir isso foi a parte mais fácil. Coloquei dois chicletes na boca e os mastiguei até doer o queixo. Depois separei um pedaço e coloquei vocês imaginam onde na pobre Cassimone... E fui viver minha vida de criança.

Dona Nau, de fato, parou de reclamar e eu esqueci de Cassimone. Certo dia, minha avó caiu em si e foi olhar direitinho o que estava acontecendo, pois a galinha, antes tão senhora do seu destino, andava pelos cantos, comendo seu milho, bebendo sua água, mas sem nenhuma disposição pra vida. Nesse dia, Cassimone sumiu até das nossas vistas.

Depois de muito procurar, minha avó achou a galinha debaixo da figueira, numa parte do quintal cuja existência Cassimone antes parecia ignorar, tão acostumada que estava aos passeios pela casa afora. De imediato, ela achou que a galinha estivesse choca. Depois viu que havia algo errado: acode, Teresa, que a galinha está doente! Ao examinarem o animal, lá, bem lá, estava a prova do meu crime: Cassimone inchou e morreu, dias depois, por causa do chiclete que eu preguei na entrada da sua cloaca. Ou seria na saída? Continuo não entendendo muito da anatomia dos emplumados.

Parece que a minha avó não ficou brava comigo, pois não lembro de ter sido castigada. Afinal eu era uma criança que, com toda a inocência e o desconhecimento de anatomia de que era capaz, gostava de resolver problemas, especialmente se eles tivessem como objetivo fazer com que a minha avó parasse de reclamar de alguma coisa.

Hoje em dia procuro ter certeza de que estou sozinha antes de pensar em voz alta. Não que eu tenha tentado me redimir adotando uma quarta Cassimone. Acontece que aqui em casa vive uma menininha de quase cinco anos que detesta ver a mãe reclamando de alguma coisa...

10 comentários:

Anônimo disse...

A meu ver, a questão mais relevante não era a desinformação anatômica e sim quanto ao extermínio de uma franga de visão futurista. Sabe-se lá quanto essa classe não teria evoluído?
bj
Regina

Anônimo disse...

Triste sina a das cassimones (adorei o nome, de galinha mesmo rsrsrs)!Mas crianças aprontam mesmo e não entendem linguagem figurada,melhor prestar atenção à língua...rsrsrs

Essas suas lembranças são deliciosas de se ler.Adorei.

Bjos e []s

Ivette Góis

batatatransgenica disse...

aimeudeus aimeudeus aimeudeus! tou aqui chorando de rir, ao mesmo tempo que bate umas ternuras pela inocência da infância... crônica maravilhosa!

Blog do Cintrão disse...

Muito legal!

Renata Komuro disse...

É um tema bastante sugestivo... só faltou a foto da galinha! Até me lembrei daquela música: "eu tinha um galinha, que se chama Marylú! Marylú, Marylú... soltava ovo pela cloaca!" Lembra? do Ultraje a Rigor...
bjs e parabéns pelo seu texto.

Kenia Mello disse...

É claro que eu lembro, Renata. Os anos 80 causaram danos enormes na minha mente, mas, infelizmente, não atingiram a memória. Hehehe

Renatha disse...

Me atualizei do seu blog.
A do Xexo foi ótima...
Levei uns há uns dias...
Cliente é lasca :)
Íntimos tb :)))
Tô com um xexo que se cobrasse juros...
Menos mal é que num tá fazendo falta :))))

Kenia Mello disse...

Pois acho que vou dar um xexo em você, Renatha. Hehehe
Dinheiro pra mim SEMPRE faz falta. ;)

Anônimo disse...

Mais uma vez pude me deliciar ao ler a doçura de seus textos, como consegue retirar poesias de sua infância... ADORO o que você escreve e como escreve, será que já não é a hora de nos brindar com um livro?!
Convide-me para a tarde de autógrafos.
Beijos
Maria Betânia

Kenia Mello disse...

Be, se você prometer que vem, eu brindo. ;)
Beijos e saudade.