quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Uma vida breve



Desde criança era diferente das demais. Segura de si, rebelde, gostava de chamar atenção, mas nem precisava porque ela toda era uma festa. Vê-la chegar de repente dava até vertigem.

E foi crescendo junto com a necessidade de afeição, de ser notada. Sua beleza seguiu de mãos dadas com a vaidade, com a teimosia e uma vontade sem freios. Como ela era linda! Pequena, rosto de menina, olhar malicioso, corpo de mulher que sabia como conseguir tudo, não importando quais fossem os meios.

Não tinha amigas, eram apenas as outras. E ela as ignorava, só via quem o seu desejo apontava. O resto lhe era transparente, invisível. Era uma fêmea fatal à primeira vista, mas, se observada com um pouco mais de atenção, ainda dava para perceber a menina em busca de alguma coisa inalcançável. Nesses poucos segundos de trégua, não havia como não sentir uma imensa ternura por ela.

E assim foi vivendo: sem regras, sem concessões, sem relutâncias. Teve tudo que quis. Despertou raiva, paixão, ciúme, inveja, mas desconfio que amor, não.

Com menos de 30 anos, foi encontrada morta. Um tiro no peito.

E todos que tiveram o seu amor inconseqüente, o seu desprezo e a sua indiferença silenciaram. Não se chocaram, não lamentaram. Essa calada aceitação diante do fato era reveladora, dispensava palavras. Ela teve o que mereceu, disseram os menos hipócritas sem, no entanto, serem mais corajosos. Coragem mesmo teve ela de viver à sua maneira desenfreada, marginal, impetuosa.

E, de algum lugar, ela ainda parece sorrir como se tudo fosse possível.


Para Tatiana Lins, que perdeu a vida tão cedo numa sociedade em que a liberdade é permitida, contanto que se nasça homem.

21 comentários:

apá silvino disse...

que tocando Kenia...

é.. "contato que se nasça homem"...

abraços,

apá

Anônimo disse...

a liberdade tem um preço e qdo se é mulher,infelizmente,ele é bem mais alto ainda.
E essa moça é uma numa infinidade de outras q pagam diariamente as conseqüências por viver segundo suas regras.
O que não quer dizer q isso só se aplique às mulheres,quem sai do script sempre sofre as conseqüências...

Bjos e []s

Ivette Góis

Elaine Bittencourt disse...

muito lindo o que vc escreveu.

beijos!

jose luis disse...

o preco da liberdade e' muito alto
muito alto

Lilás disse...

Assim como ela tem tantas por aí afora, desgraçam-se a si mesmas.
A filha, ainda menor, de minha empregada é uma dessas. Toda semana ela me conta que vai entregá-la ao juizado de menores, mas não tem coragem. E a garota qualquer dia aparecerá assim, desse jeito.
Tomara que mude!
abraço carioca

Patricia Daltro disse...

Um liberalismo hipócrita, que vai continuar matando muitas. Como quando uma amiga foi esuprada e a primeira pergunta do delegado foi se ela estava de saia!

rosane disse...

estava esperando um final feliz, mas na vida é tudo muito diferente... uma pena!

Repórter Bacurau disse...

Quem era ela?

Kenia Mello disse...

Tatiana foi uma conterrânea minha, estudamos no mesmo colégio. Se estivesse viva, teria hoje 40 anos. Deixou dois filhos.

Erando disse...

Eu pensava q era tu, até a frase do tiro, e salvo alguns adjetivos q não combinam com sua pessoa...
XÊro

Kenia Mello disse...

Querido Primo, tirando os adjetivos teimosa, pequena e (fêmea) fatal, todos os demais podem ser facilmente atribuídos à minha modesta pessoa.
Pena que essas mesmas qualidades foram tão desigualmente distribuídas na nossa família... Fazer o quê? Uns com tanto e outros sem nada... Hehehe
Beijo. :P

Kenia Mello disse...

Se Tatiana fosse homem, seria pegador, garanhão, macho pra cacete e que tais.

creusa disse...

Tive a oportunidade de conhecê-la e de captar seus breves momentos de doçura infantil. Ela realmente era muito bonita. Fazia o que dava vontade e não demonstrava ter remorso ou sentimento de culpa. E era isso que a "sociedade" não engolia. A hipocrisia, como há muito, sempre imperou. Andar no topo dos extremos tem seu preço e exige coragem.

Kenia Mello disse...

Creusa, seja bem-vinda!
Beijo.

Ana Paula disse...

Meus parabens, que texto lindo e verdadeiro,essa era a verdadeira tatiana,quem a conheceu de perto como nós a conhecemos sabe bem disso,apesar de todo impulsso dela,a carencia a meiguiçe era notada para quem a olhasse nos olhos.grande beijo

Kenia Mello disse...

Ana Paula, seja bem-vinda.
E esse texto tem a ver com você também porque foi a partir das suas fotos e do que falamos sobre Tatiana que eu consegui escrever sobre ela, tantos anos depois.

Beijos e volte sempre.

ohana disse...

INFELZMENTE A NATUREZA HUMANA PREVALECEU OS MACHOS E OS QUE POSSUEM GRANA ATE ALGEMAS AGORA NAO PODE POIS RICAÇOS,LADROES E TODA CORJA FICAM CONSTRAGIDOS... TATIANA ERA ADMIRADA E ODIADA POR MUITOS MAS O QUE VALEU FOI SUA SEDE DE VIVER SEM ROTULOS E ISSO ELA FEZ COMO POUCOS TIVERAM CORAGEM DE FAZER, PARA O MACHO CRIMINOSO FICARA A LEI DO RETORNO NESSA OU EM OUTRAS VIDAS PARABENS KENIA...

Eugênia Bittencourt disse...

Pelo menos ela viveu, ousou, revolucionou...
Provocou um misto de sentimentos em todos, e com certeza marcou presença nesse mundo, muitas vezes tão sem graça, especialmente para nós mulheres que vivemos “numa sociedade em que a liberdade é permitida, contanto que se nasça homem”.

Uma pena ela ter tido um final tão infeliz, e creio que até nessa hora, deixou marca...
Marca da dor de ser mulher...

Mas, quem não sofre nessa vida?

Lindo, o que você escreveu, Kenia!!
Me fez parar um pouco, analisar a vida.
Se perscrutássemos melhor todas as dores que vos advêm, nelas encontraríamos sempre a razão divina, razão regeneradora, e os nossos miseráveis interesses se tornariam de tão secundária consideração, que acabaríamos colocando-os para o último plano.

Que Tatiana esteja em BOM LUGAR e...sorrindo!!
“E, de algum lugar, ela ainda parece sorrir como se tudo fosse possível.”


Kenia.SUERTE Y SALUD PARA TI!Adorei ler teu texto em pleno sábado ensolarado...

____________Besitos amiga!!___________

Kenia Mello disse...

Ohana e Geny, sejam bem-vindas.
Beijos.

Coronel Yanossauro disse...

E eu pensando que o texto era sobre Marylin Monroe até dares nome ao boi, aliás à vítima.
Assim como Lilás, conheço uma menina que está bem no caminho de tua amiga Tatiana. 17 anos, grávida, expulsa de casa por querer viver a vida como quis, daqui a pouco estará com uma bala na cabeça. Ou uma(s) facada(s) em outro lugar, pois destino de meninas sem estudo, pobres e bonitas largadas pelas famílias passa tantas vezes pelo prostíbulo...
Ô mundo triste!
ftuxgi

Kenia Mello disse...

Yano, não se engane que esse seja apenas o destino de meninas sem estudo, pobres e bonitas largadas pelas famílias. Tatiana não era nada disso, a não ser bonita.
A coisa é muito mais complexa porque envolve uma clara distinção entre o que é permitido para o homem e para a mulher. Tem mais a ver com estímulo e castigo, duas reações tão adversas para um mesmo comportamento.
Mundo triste, de fato.