sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Festa em mim



Hoje resolvi me dar uma festa
mas pequena, sem pompa alguma
festa sem aviso ou convite
festa sem motivo aparente
festa silenciosa
de gente que ri escondido e às vezes fala sozinha
festa de quem não gosta de festas

Tomei banho sem pressa
Deixei os pés descalços pisarem silenciosos o chão lisinho
Não sequei o cabelo, o vento fez isso por mim
só por hoje e isso não me importou
No meio das roupas sujas
Joguei algumas culpas, meia dúzia de certezas e poucas resoluções
Não sentirei falta delas
ao menos por hoje e isso me basta
Não vieram passarinhos, barulhos da rua, pensamentos
Nem eu os busquei, sequer estranhei a ausência
Prefiro até que se percam de mim como eu me encontro perdida deles
Quero mesmo que o mundo me esqueça
Mas só um pouco
e só por hoje
Porque preciso da sua falta de sentido fazendo companhia à minha

Hoje decidi que seria um bom dia
Para não ter pressa
Não ter roteiro nem propósitos
e só por hoje senti alívio
ao invés de sono,
dor e inquietação
E não há poesia nisso, muito menos covardia
Cada um é como pode
E hoje eu pude virar a mesa
apenas hoje e isso não é coisa pequena

Porque de vez em quando é preciso
olhar no espelho demoradamente
e se perder no alheio
de um rosto que talvez fosse o meu
caso tivesse havido mais dias como hoje

Então resolvi me dar uma festa
Deixei meus pés descalços, o cabelo molhado e a cabeça quieta, enfim
E isso não é coisa pequena...

16 comentários:

João Eurico disse...

Arrasou !

Anônimo disse...

o momento pode até estar ruim,mas os textos estão de primeira.Pena q não posso dizer continue assim né?rsrsrs
Lindo demais!

Bjos e []s

Ivette Góis

Marco Y disse...

É Kenia... A vida é mais esperta do que imaginamos. O seu momento de crise existencial, pelo menos na blogosfera, nos premiou com um texto lindíssimo.

show

silvania lessa disse...

À flor da pele, denso e silencioso. Às vezes tb necessito de dias assim.
Coisa linda, Kenia. :-)

Anônimo disse...

Perfil do verdadeiro poeta: dá uma festa pra si, mas sabe que está brindando com o leitor!!!
Valeu!
bj
R.

jose luis disse...

e' um festao mesmo

Beth/Lilás disse...

Dizem que os poetas, músicos e artistas em geral, produzem mais e melhor quando estão sob crise.
Talvez seja assim contigo, querida.

À propósito, hoje é dia de blogagem coletiva sobre Cecília Meireles e deixei lá este poema dela que tem muito a ver com o que vc disse, veja só:
...............................
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Anônimo disse...

Lindo e tocante.

Um beijão.

André Costa

Sweet! disse...

Q bom!

Crysthine disse...

Estou sem adjetivos, talvez pq "sensacional", "maravilhoso" é pouco para esse texto.
Parabéns, Kenia, por sentir da maneira q vc sente e expressar esses sentimentos desse jeito tao...tao...

Beijos

Repórter Bacurau disse...

Sensacional, Madame.

Gostaria de ouvir você recitando esses poemas. Grave em mp3 e coloque no blog. Vai ficar massa.

Agora tem que começar por esse aí.

Esperança da Luz disse...

Palmas!!!!!!
clap clap clap clap clap...

Fatima disse...

Mais palmas!!!!.. muitas palmas!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clpa!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!
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Fatima disse...

soniMais palmas!!!!.. muitas palmas!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clpa!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!clap!clap! clap! clap!clap!clap!
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Yêda disse...

Mas meu Deus do ceu, o que é mais que eu vou dizer ante todas as coisas e palavras de lindo que já foram ditas??? É uma pena, pois em cada uma delas eu penso como o poeta musicou: "como não fui eu..." que disse??? Mas fica o reforço do parabéns que é pra ajudar a aumentar ainda mais o crédito de tanta coisa bonita: Majestoso poema, encantador sentimento refletido em palavras que se pode ler e sentir ao lê-las tão exato como se a gente também estivesse sentindo. Hj, já domingo, depois de uma semana em que até doente estive sem me sentir, é cinematográfico estar postando aqui, com vcs. Parabéns amiga, e obrigado, vc me deu uma linda noite de autonomia no meu fim de semana.

Patricia Daltro disse...

Aplausos de pé! Amei!