sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Crise dos 40



Não recordo exatamente onde nem com quem surgiu a conversa, mas lembro de alguém, na minha faixa etária - faço 42 em abril -, dizendo que depois que entrou no time dos quarenta, sentia-se uma mulher invisível. A afirmação me deixou perplexa porque, quando isso aconteceu, jamais passava pela minha cabeça algo assim: para mim, ter quarenta anos estava sendo uma fase de plenitude física, intelectual e emocional. Como sempre pratiquei esportes, saúde e disposição física somadas a uma compreensão maior das coisas me proporcionavam uma bagagem que se traduzia na sensação de achar que a coisa toda estava só começando e bem, diga-se de passagem.

Mas eis que do meio até o fim do ano passado, a famigerada crise dos quarenta começou a dar sinais de existência. Não que eu me achasse invisível, muito pelo contrário, mas alguma coisa não estava mais se encaixando. Eu já não era mais uma mulher de vinte ou trinta e poucos anos. Tampouco uma senhora. Foi um período de me sentir meio no limbo, suspensa, sem identidade. E por mais que as pessoas mais chegadas dissessem que eu estava bem, bonita, madura e segura de mim, nada parecia me consolar: entrava por um ouvido e saía pelo outro. Tudo me soava a prêmio de consolação, inclusive a sinceridade alheia, que naquela altura do processo, eu não considerava tão verdadeira assim.

Nesse período, a cabeça foi a mil e a sensação de game over se instalou de maneira cruel. E uma das coisas que mais pesou foi saber que dali a pouco anos, minha vida reprodutiva chegaria ao fim. Não que estivesse nos nossos planos ter mais filhos - até estava, mas sem muita convicção -, mas encarar essa verdade de frente doeu. A cada vez mais próxima chegada da menopausa e, claro, o medo da invisibilidade me acuaram. Senti-me frustrada e insegura. E em nada ajudava servir de ponto de referência com termos como coroa, por exemplo. Porque, putz, o tempo passa tão rápido! Certo que existe um grande hiato entre o tempo da primeira faculdade e hoje. Muita coisa aconteceu de quando eu tinha 18 anos e de todas as coisas, boas e más, que vivi até aqui. Mas, por dentro, a chama é a mesma, a energia, apesar de diminuída para algumas coisas, vibra com a mesma intensidade. Sou a mesma pessoa de vinte anos atrás, mais sábia, mais segura e... mais velha. Aceitar as mudanças positivas é fácil demais, mas ver que a pele já não é mais a mesma, lutar um duelo de titãs contra a balança por causa de uma simples estrepolia gastronômica, já não dormir mais como uma pedra e, ah, sentir a finitude da vida de maneira concreta é barra pesada. E tudo dói demais no processo, até o que antes nem se percebia.

Mas do jeito que a crise se instalou, de mansinho e sem que eu sentisse, também se foi. Confesso que comecei o ano sem muitas expectativas, mas à medida que as coisas foram acontecendo, a poeira foi sacudida e a fase negra parece ter passado. Descobri nesse período que, por mais que queiramos, o tempo não volta mesmo. Você pode até resgatar um pouco de quem você foi, cobrar de volta certos gestos, convicções e interesses que o passar dos anos, as responsabilidades e a exigida seriedade te roubaram. Você pode trazer de volta a doçura, a vocação para acreditar nas pessoas (sem a ingenuidade inicial) e, sim, isso vem de lambuja: a capacidade de rir de si mesmo, dos seus erros e das suas limitações. Não levar tanto as coisas a ferro e a fogo, não se levar muito a sério. Essas coisas, que beleza, só chegam com a passagem do tempo. Mesmo.

Ultimamente tenho encarado a vida com mais leveza e de pouca coisa não tiro motivo para rir. Mas também tem dias, nublados e chuvosos como estão estes dois últimos, nos quais pinta uma saudade tão grande que companhia alguma preenche. É o vazio do que não volta mais: pessoas amadas e tudo que as rodeava. Acho que envelhecer é isso: sentir saudade de tudo, até do que não se sabe exatamente o que é. Mas estou aqui de peito aberto e com a certeza de que ainda muitas águas vão rolar e o melhor é que aprendi que posso simplesmente deixar a correnteza me levar quando o cansaço bater.

21 comentários:

Anônimo disse...

como diz Caetano,"cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...".
O amadurecimente é a contra-partida (com hifen?) do envelhecer,a natureza é sábia (só q deveria ser mais lenta).rsrsrsrs
Mas olha q vc está ainda uma menina e realmente muita água ainda vai rolar,acredite.
Confio na sua sensibilidade e bom senso pra chegar lá.

Bjos e []s

Ivette Góis

Marco Y disse...

Você acabou de me fazer perceber uma coisa doida... Que talvez envelhecer traga saudades de gente mesmo... De uma parte de nós que ficou para trás...

silvania lessa disse...

Coisa linda, Kenia.
Quero ser igual a vc quando crescer. ;)

Lúcia Soares disse...

Acho que todo mundo passa por isso. Só que não consegue colocar em palavras, tão bonito, como você.Como tenho um pouco a mais, posso lhe dizer que fácil não é, mas há tantas compensações! Se a gente se ligar apenas no físico, a dor é maior. Mas se a gente percebe, como você, que outras coisas boas vão surgindo,dá pra levar numa boa. Por comodismo meu, deixei que um problema nos joelhos tomasse uma proporção grande, agora pela idade. Se tivesse me cuidado mais jovem, fisicamente, não estaria passando por isso. Portanto, com conhecimento de causa, só lhe aconselho isso: continue se cuidadndo com exercícios. Assim, os anos chegarão e você não se sentirá nunca "uma idosa", mas uma mulher plena.

Repórter Bacurau disse...

Quando eu tiver 40, quero escrever assim... hehehe

Amadurecer é isso: ficar mais leve.

Creusa Santos disse...

Amiga, vc me trouxe uma confirmação e um alento. Entrei para o culbe ano passado. E festejei com muito orgulho e animação. Percebi que era a idade de mandar TNC (perdão) na boa, e com a maior classe! Percebi que as pessoas já não mais nos enganam como antes, que rimos de quase tudo, principalmente de nós mesmas e tudo o mais. Mas do final do ano pra cá, altas crises, altas indagações, coincidindo com o incício da adolescência de filho, crises e mais crises. Dias nublados. Tudo que vc sentiu. Mas saber que passa foi o maior alento! E acho que poderemos voltar a viver orgulhosas de nós mesmas. Como disse Madonna, "50 não é palavrão!". Bjo grande.

Yêda disse...

Até que ensaiei uma palavras, mas quando apaguei pela segunda vez, ví que não é o momento de me pronunciar!! Então... 100 palavras. Devia ter carinhas pra exprimir quando esse branco acontecesse!! Beijos.

Celo disse...

Kenia, voce me faz recordar tantas coisas boas, num tempo distante que por paradoxo que seja não consegue distanciar do hoje. olho pra voce e sinceramente não consigo ver tanta diferença.Voce continua a mesma, com aquele olhar de quem quer enxergar distante.
continua linda e misteriosa.
um beijo

Celo

jose luis disse...

se os homens soubessem conhecer a mulher da 40,,,

Anônimo disse...

Dias atrás um dos meus filhos tirou onda observando que eu estava mais lenta por causa da idade e eu, que não tenho problema de auto-estima achei graça, mas concordei -em parte- já que não é devido à idade e sim... maturidade!
E com certeza ele também só entendeu em parte, já que por essa experiência/vivência só quem passou pode falar.
A gente fica mais lenta porque depois de cada crise descobre que não vale a pena correr; e o legal é que vc se sabe ágil e dinâmica mas ESCOLHE não perder mais energia à toa. Sabe que em um imprevisto é vc quem vai AGIR... e da maneira mais acertada!
É essa sabedoria que só vem com o tempo mesmo. E, claro, ela vem com todas as emoções que se viveu, apenas a gente também escolhe o que levar e o que jogar no lixo... e o que pesa é que vai sinalizar.
De cinquentona LEVE que viveu perto dos 40 a adolescência reprimida, senti na pele aos 30 e poucos a crise de uma menopausa fisiologicamente forçada, vendo tudo a ferro e fogo aos 20, quando no auge da minha beleza física e intelectual :P me casei e tive 4filhos homens.(todos quase no mesmo ano rssss)
Enfim... as experiências têm nuances e toques pessoais, pois cada uma de nós tem sua própria trajetória de vida.
Mas no final vc disse algo que é inerente a todas nós.
Porque chega uma hora em que a gente só quer mesmo deixar o barco correr... sem contudo perder a lucidez.
Siga sempre com essa leveza que vc se propõe que estará no caminho certo.
Com meu beijo, minha estima e minha admiração,
Regina

Adriana Almeida disse...

Querida amiga Kenia!!!
Adorei essa matéria que você escreveu, você é mesmo uma mulher muito sábia...E pode ter certeza você é linda e poderosa... Isso não se acaba nunca...O brilho de pessoas especiais!!!
beijos e fica com Deus
Adriana Almeida

Beth/Lilás disse...

Minha querida, aquiete o coração, pois sua luz brilhante dá pra ser notada de longe, até aqui no Rio de Janeiro.
O que adianta ter 20 e poucos anos, sem ter este brilho!
Você é muito linda.
bjs cariocas

Fatima disse...

Mulher poderosa vc!!!
Adorei seu texto e é exatamente o que voce escreveu que sinto,tenho muita saudades do que fui, fico pensando que poderia ter aproveitado melhor tudo, mas não deu tempo, agora vou deixando a vida me levar! ( vichi...isso ja deu musica....!)
bjs

DILERMArtins disse...

Ah! Os 40!
A Verinha diz que entrei na maior depre...Não lembro!
Você tem razão, por dentro, os meus quase 60 parecem 20(30 no máximo), trabalho(2 horas/dia),o resto do tempo é pra estudar, ler escrever, pescar...

Telma disse...

Não esqueça que toda idade tem o seu encanto e o momento é agora!
Bjos.

Isabel Mello disse...

Minha amiga desde Sempre, me chamavam de ESTRANHA,kakaka, aos 12disse SIM a vida e a felicidade, passei por vários processos, intensamente,SOU LEONINA, vc imagina isso? Então, sempre ouvi falar da crise dos trinta, quarenta, menopausa etc..
Nos meus 40 anos fiz três dias de festas, com tribos de amigos diferentes, foi o único aniversário que desejei festejar, e da-lhe festas. Foi quando de fato celebrei minha REAL IDENTIDADE, percebi meu corpo, meu tesão, minhas conquistas, o meu querer e não querer, e disse:Ninguém me segura, deixa eu passar kaaka
Aos 41 anos retirei o útero, tive mioma, pulei a menopausa, sorte? Quem sabe....
Hoje, Marina diz, mãe você se acha, eu respondo EU SOU. SOU feliz, bem resolvida, libre, apaixonada pelo que faço, pelos amigos, pela minha cidade, casa....HOje, sou mais paquerada que 20 anos atrás, por garotos de 23, 24, 25 anos, que loucura, acho incrível tudo isso, muitos jovens, buscam mulheres com estabilidade emocional, e hoje compreendo mulheres como Marilia Gabriela e outras.

Vamos falar mais sobre minhas mulheres de 40 anos, descobri a sedutora, a intelectual, a espiritual, a mãe, a filha, a amante, a irmã......a guerreira, essa sou louquinha por ela. Ela me ensinou a ganhar território no mundo, me fez uma fala nova, do que penso e sinto. Me tirou o medo de Ser eu mesma. Me ensinou a exercitar minha fé, ver a face de Deus, vasculhar minhas feridas de alma, meus segredos mais profuntos. Essa guerreira de 40 chegou cheia de luz, de novo, de esperança, e eu?
Disse sim a ELA, e a todas que desejarem chegar.
Pois sei que sou cada uma delas.
Começo a escrever um novo ciclo em minha vida.
E a cada dia descubro algo novo, e me apaixono por esse momento único.
Mulheres de 40anos e tantos mais.
Celebro sua existência!

Isabel Mello

LuMa disse...

Olá, Kenia, vim lá da Paola, do "Minha filha já pode votar". Vc sabe que já superei "bastantinho" os males que assolam a cabeça. O problema continua sendo físico mesmo!....Não dá mais para usar roupas que não sejam em tecidos elastizados! Venha tomar um cafezinho em casa, pois casualmente, eu tbém havia tocado o assunto dos "Quarenta". Abraços! LuMa

Anônimo disse...

Kenia, só pra esclarecer melhor em relação a meu texto: sabe-se que
retirando o útero não se queima a etapa da menopausa, pelo contrário, ela vem precocemente, pois os ovários diminuem consideravelmente seus níveis hormonais até mesmo com a histerectomia parcial, como aconteceu comigo aos 36 anos de idade.
Sendo que, preservando-se os ovários - como no meu caso - os efeitos são mais lentos e sutis, PORÉM todas aquelas alterações acontecem, tais como ganho de peso, dores articulares... inclusive as chatinhas ondas de calor e suor gelado. grrrrr :)
Porém, eu creio que o que driblou a depressão deve ter sido justamente o fato de estar em "fase elétrica" qdo não se tem a real noção da idade em si e toda aquela bronca q vem junto rsss.
Procurei ficar informada, mas sem pânico já q minha médica me tranquilizou, uma vez q eu me alimentava corretamente e fazia exercícios regulares, sendo q a coisa pegou alguns anos depois qdo comecei a ficar sedentária rsssss
No caso da irmã da minha nora (Manu)que teve que se submeter a cirurgia radical nesse sentido aos 20 anos, há o mesmo desconforto da mulher aos cinquenta, justamente por causa dessa "queda" hormonal.
O bom é q ela é muito jovem, já engordou demais mas já emagreceu, é universitária, já casou e pensa em adotar um filho.
Pois é isso... c´est la vie!
É bonita, é bonita e é bonita. :)
bj
R.

Kenia Mello disse...

Regina, eu estava mesmo querendo saber essa história da menopausa aos 30 e poucos. :)
Beijos.

Kenia Mello disse...

Luma, seja bem-vinda! :)

Isabel Mello disse...

Como falei antes, quero colocar quanto a minha fala "pulei a menopausa", não falei no sentido fisico, pois sou humana e passarei por todos ou alguns sintomas dela.
Mas coloquei no sentido de não ter paranóia, expectativa, medos de que AGORA ela vai chegar, vc entende?
Principalmente, muitas mulheres, ligam os 40 anos com aproximação dela.
Bom, continuo dançando pela vida, e vivendo um fato de cada vez, saboreando cada oportunidade em minha vida.
bjs