terça-feira, 23 de junho de 2009

A linguagem barroca nordestina



Dia desses recebi um daqueles e-mails sobre o nordestinês, o modo de falar todo nosso, nós, que causa estranheza aos brasileiros de outros estados e a nós, os locais, acima de tudo, diverte. É uma linguagem inventiva, metafórica, lírica e, sobretudo, barroca.

Cito aqui alguns fragmentos do e-mail:

Nordestino não conversa, ele resenha!
Nordestino não percebe, ele dá fé!
Nordestino não espera um minuto, ele espera um pedacinho!
Nordestino não fica com vergonha, ele fica encabulado, todo errado!
Nordestino não passa a roupa, ele engoma a roupa!
Nordestino não rega as plantas, ele 'agoa' as plantas.
Nordestino não vigia as coisas, ele pastora!
Nordestino não vê coisas de outro mundo, ele vê uns malassombros!


E há um lirismo imenso na fala popular! É português seiscentista, barroco, pura poesia popular. Não é à toa que dizem que falamos cantando.

Em linhas bem gerais, a nossa fala popular é muito marcada por trejeitos do português arcaico, especialmente dos séculos XV e XVI, que, em paralelo com as artes, vivia sob a égide do Barroco. A linguagem nordestina, da qual a linguagem popular é reflexo mais vivo e pontual, reflete esse barroquismo, esse estar no mundo em meio a perplexidades. Quando dizemos que vamos aguar as plantas, por exemplo, o que estamos fazendo além de, no âmbito da linguagem poética, embora coloquial, dizer que, com a nossa mão, humana, fazemos o que divinamente a natureza pratica? Além de (e especialmente!) ter também o empenho lúdico das palavras, que é uma constante não apenas no nosso falar, mas no nosso modo de enxergar a vida, coisa mais barroca, impossível.

Se vocês pensarem no que foi feito em São Paulo, no momento heróico do Modernismo de 22, também encontrarão elementos barroquizantes. Na escrita de um Guimarães Rosa, que era mineiro de nascimento, mas universal por merecimento, também vemos em Grandes Sertões: Veredas, a saga barroca de Riobaldo, em conflito agudo com o divino e o que o mundo lhe mostrava nos caminhos tortuosos dos sertões brasileiros. Também na arquitetura de Niemeyer que, apesar de moderna, guarda uma certa parentença com as formas de Aleijadinho – isso não fui eu quem disse, foi Sartre que, numa visita ao Brasil, percebeu essa aproximação. Enfim, ser barroco, na perspectiva da arte e, conseqüentemente, da linguagem, é coisa não apenas nordestina, mas brasileira.

Foi a leitura de texto muito bom sobre o Barroco e o homem moderno, de Affonso Ávila, O Barroco e uma linha de tradição criativa, in: O poeta e a consciência crítica. Editora Summus, 1978, que suscitou esta reflexão.

P.S. Se alguém se interessar pela leitura, sinalize, que eu digitalizo e envio o mesmo.

11 comentários:

Beth/Lilás disse...

É mesmo, o nordestinês, chama atenção aqui mais abaixo. Eu adoro ouvir alguém falando com as palavras invertidas das nossas e, principalmente, o sotaque aberto, bem tipo Alceu Valença.
Aliás, fico sempre imaginando como seria você falando, seu sotaque e seria uma ótima idéia se vc gravasse esse texto no you tube e colocasse prá gente falado e não escrito. Eu ia adorar. Bota?! hehe
bjs cariocas.com

DILERMArtins disse...

Mas bah, guria.
Pessoalmente, adoro essa barroquice nordestia, mas te digo, nem todos concordam; tenho um amigo alagoano que, toda vez que digo "vocês falam cantando", ele rebate: "Nós não ô cabra, quem canta é paraíba que quando abre a boca já toca um pandeiro pra acompanhar."

Kenia Mello disse...

Pois é, Diler, e o que existe mesmo é, dentro da mesma região, os sotaques terem uma variação bem peculiar, típica de cada estado, muito legal isso. E, sim, muitas pessoas daqui acham que falar cantando é demérito. Talvez por já terem sido ridicularizadas, sei lá, usam do mesmo juízo de valor com relação aos outros nordestinos. Já eu me amarro nessa musicalidade. ;)

Punksauro Nei disse...

Esse assunto me faz recordar de Manoel Pintor. Jamais Mané Pintor.
Era um "Ariano" do sertão potiguar.
Num papo, enquanto ele te chamava pelo nome, ok, a cerveja não subiu tanto e nem a conversa lhe é contraditória.
Quando ele mudava para "moço", ainda havia chance de dobrá-lo na semântica e dava pra descer uns dois rabos de galo.
Mas quando ele lhe chamava de "homem", já era. Era o sono do álcool e o seu mal humor. Chega de birra e cachaça.

Punksauro Nei disse...

ingampsoAriano não no sentido étnico, mas no sentido "Suassuna".

Ele era da tuba de uma banda de coreto em Caicó-RN.

Muitos, mas muitos causos.

Além daquele simpático mal humor de velho sábio do sertão.

Mani disse...

Quando minha avó ia procurar algo, ela "caçava". E quando me apressava, dizia: AVIA, FIA!!! Adoro nosso jeito de falar!!!!!

Cristiana disse...

Tinha uma senhora que trabalhava na casa da minha avó que, antes de pendurar a roupa no varal, tomava a precaução de "assuntar a massaranduba do tempo".

Anônimo disse...

nunca tinha pensado nesses termos,mas faz muito sentido.E sem dúvida q o falar nordestino é extremamente poético.

Bjos e []s

Ivette Góis

josue mendonca disse...

obrigado querida
seu blog está cada vez melhor
abraço pernambucano!

Giovanni Gouveia disse...

\o/
Não sei se por ser nascido e criado nessa terra cheia de monumentos barrocos, ou pela paixão despertada ao ler Gregório, Bento e Vieira (pense numa intimidade), o fato é que qualquer coisa daquele estilo artístico é sempre bem vindo.
Destarte, nobilíssima Mme., penso habilitar-me a tão valorosa lida, se me é permitido.

brise

batatatransgenica disse...

madame k., embora de muito atraso, sinalizo agora: posso receber o artigo, posso?

ah, pregunte para amandio da lista portuguesa a respeito de um ensaio que ele escreveu sobre o assunto...