sábado, 11 de julho de 2009

Cavilação



Todo causo cabe três estórias:
a tua, a minha e a verdadeira.

Dito de boa Sabença
* * * * * * * * * *

Ah, Genival, que injúria me prega! Nada disso que está pensando, não!... Já lhe disse que não! Nego e renego! Ora, faz mesmo questão que lhe explique? Por mim, nem carecia... Pois bom, sem tirar nem botar, lhe conto.
Pois bom, todo dia, logo cedo, cheiroso e engomado, você corre a trabalhar de balconista. Muito que lhe bem. Toda noite fica ainda fora, fazendo biscate de garçom. Coisa que desgosto, mas me conformo, ainda que carecida. Se acha que, assim fazendo, nada me falta... Disso, faz tempo, deixei de reclamar. Preguiça não enche barriga. Tenho mesmo que agradecer, bem retribuindo seus cuidados de bom marido.
Hoje mesmo, larguei minhas costuras, lembrada de passar punhos e colarinhos de quantas camisas. Mas a goma tinha acabado e também faltava carvão pro ferro de engomar. Ora, essas faltinhas, você não perdoa mesmo, pois não? No menos das vezes, não diz, mas palpito que me pense mulher preguiçosa e relaxada. Não mereço, mas esqueço tais ninharias.
Adonde comprar goma e carvão, hora daquelas? Mesmo debaixo de quanta chuva, devia de cumprir essa obrigação. De manhã cedinho, havera meu homem de estar todo lorde, arrumado e engomado, pra bem servir quem servido fosse.
Daí avante, tudo fiz mais que avexada. Enfiei o vestido assim mesmo, nadinha por debaixo, peguei a cesta e rumei pro mercado, sem avaliar se aberto ou fechado estaria. Com pressa, esqueci da sombrinha. Nas ruas, chuva muita e nem viv'alma; somente a devota aqui, zanzando atrás de goma e carvão. Ensopada e friorenta, vestido colado nas formas, como ainda estou. Passava na esquina da rua Esquerda, quando, sem ninguém à vista, escutei um chamado vindo do Beco Mirim. Sou mulher direita, você sabe que não atendo a qualquer psiuzinha à-toa! Mas, de novo, aquela vozinha me chamou. Nada de chamamento safadeza, não. Era gritinho rouco, fraquecido, embora aperreado, dizendo meu nome com todo respeito.
- Ei, dona Francleide!...
Fui virando o rosto devagar, olhando enviesado, pronta pruma honesta rabiçaca. Mas findei espiando direitamente e não tinha ninguém. Já seguia caminho, rindo do disparate, quando chamaram outra vez. A voz vinha de baixo, rente ao chão.
- Dona Francleide!...
Ora, ninguém caído estava, nem ao menos acocado, naquele bequinho sem esgotos nem porões. Somente um sapo, cururuzão avantajado, tamanho quase dum peba, ali parado num pé-de-parede. Dei um tunco e já passava adiante quando percebi que era justamente aquele sapo que chamava. Fiquei pasma com tal disparate. Sapo comum, agrandalhado, mas comum, cururu besta de beira-de-corgo. Se bem que algo emagrecido, sem aquele bucho inchado que todo sapo carrega. Avaliei ser leseira minha. Mas aí, pulando pra minha banda, o cujo falou, meio choroso.
- É com vosmicê mesmo, dona Francleide!
Ufa, no tamanho susto, fiquei presa no chão, abismada naquilo.
- Somente pessoa de alma pura e justa, pode me valer nessa desventura! - o bicho seguiu dizendo, muito convencedor.
Eu queria correr e não podia, gritar e nem gemia. Quando alembro chega me arrupio! Não desfaleci por falta de acudimento, juro! Daí que o sapão chegou mais perto, olhou pros lados e...
- Não tenha medo, dona Francleide, não quero nem posso lhe fazer mal. Apenasmente imploro sua ajuda caridosa. Se digne de ouvir, com toda compaixão, a estória do meu penoso padecer!
Eu não disse que sim nem que não, olhando arregalada praquele bicharoco magrelo e nojento. Ele chegou pertinho e pulou pra dentro do meu cesto. Argh, que repunança; quase rebolo fora aquilo tudo! Entonce, com todo doce que pode a voz dum sapo, me propostou:
- Vambora pralgum lugar cômodo e seguro. Mode, em sossego e segredo, lhe contar minha triste sina.
A chuva seguia pesada, ensaiando trovejos e relampeios. Adonde, nesse atrapalho, havera uma mulher honrada de buscar arrego? Nem responda, Genival! Voltei pra casa sem trocar palavra com o dito, querendo que tudo findasse num sonho maluco. Aqui chegando, me pediu portas fechadas e coração aberto; pronto que obedeci. Aí ele saltou fora do cesto e pinotou pra nossa cama, desacanhado como todo cururu. E ficou de lá, muito sapamente, me olhando esbugalhado, o papo batendo vento. .. Eu, embora que ainda meio confusa, estava mais calma e demais curiosa naqueles aconteceres. Pelo sim, pelo não, somente encostei portas e janelas. Ainda sem fala, bebi água, respirei fundo e tornei ao quarto, rezando pra que fosse somente imaginação. Mas o danado ainda lá estava, mais sapo do que nunca, atento num rola-bosta que voejava rodeando o candeeiro. E me mandou, muito despachado:
- Sente na beira da cama e preste atenção!
Procurei o lado mais longe dele,pois ainda me metia medo, embora que misturado com troncho respeito. Então, assim me aclarou:
- Meu nome é Regivaldo e não nasci sapo, não. Na verdade, sou um príncipe, mancebo nobre e bem apessoado...
Nesse dito, debochei um riso que logo-logo murchou. Pois ele, toando honesta verdade, contava o que agora lhe conto.
- Sempre me encabulei pra banda de mulher - começou dizendo - tanto que nunca tive namorada, por pura vergonha de falar nessas coisas. E veio daí minha perdição. Acho que, no fundo no fundo, mais aprecio jogos de paz que artes de guerra. Fico contente junto aos meus pajens, rapaziada alegre e formosa. A rainha minha mãe botou reparo no meu fastio pelas moças. E, meio escabriada, me cobrou aclaramento. De pronto que lhe respostei: "Arre, mãinha, minha fina machice dasaguenta daquelas frescurinhas dela, viche!" Não se ria, não Genival, mode algum malembaraço no desfiar da estória! Sinta quanto engasgo de tristeza na sina infeliz desse coitado! E o sapo seguia contando...
Até que, num malembrado dia, uma princesa bonitinha e poderosa, mas sem tico de simpatia, se arriou toda por mim. E botou-se me cercando, fazendo por onde noivar comigo. Eu, nisso muito enrolado, ficava desjeitoso pra mandá-la embora; adiando e atrasando resposta que nunca vinha. Até que , o reizinho pai dela veio falar com minha mãe rainha, pra ajuste de casório. Muito feliz com a proposta, sem ao menos me perguntar mãinha pronto que aceitou. Pobre de mim! Obrigado a juntar todas as forças, na hora e vez do noivado, pra dizer, perante os convidados, que não queria casar de jeito nenhum! Ah, naquilo chegou-me desgraça! No quando, desarvorado, gritei que nem morto casaria, a linda princesa, me acredite, se transformou numa bruxa horrorosa! Piedade de nós! E num só gesto mágico fez que a rainha minha mãe e toda sua corte virassem insetos de várias diversidades. Gafanhotos, besouros, baratas e mariposas, que logo se espalharam mundo afora. E pra mim, teso de medo, entre risadas de despeito, a escomungada me agourou pior maldição.
- De agora em diante, profetou, serás um sapo cururu ronceiro e feioso e, como todo sapo, comerás insetos de toda qualistria! Mas a dúvida será teu castigo. Nunca saberás se cada bicho que engoles seja teu pai, tua mãe ou teu pajem predileto. E nessa incerteza passarás fome, vagando pelo mundo em busca de mulher séria e bondosa que te redima os pesares. Pra quebrar o encanto e voltares a ser príncipe novamente, tua salvadora deverá banhar-te com sabonete de ervas e água-de-cheiro. Mas quando tornares a ser humano estarás nuzinho e ninguém, a não ser tal boa mulher, poderá ver-te assim.
Foi por isso, Genival, que alguém saiu correndo do banheiro, pulou a janela e se escafedeu. E deixe de sua maldade besta, se enciumando daquele unzinho trejeitoso... Ah, pobre príncipe, tão belo, tão delicado, esguio que nem Biliu de Ingrácia!... Capaz de virar sapo de novo, o bichinho! Tudo por culpa sua, Genival, nesse jeito estabanado, entrando assim sem avisar! Tibes! Deus que lhe perdoe tão injustos malpensares!... E se quiser roupa aprontada, que arranje goma e carvão!

(Bartolomeu Correia de Melo, escritor natalense)

2 comentários:

Lúcia Soares disse...

Delicioso!

Cleyton disse...

Oi Kenia, obrigado por sua visita. Volte mais vezes. Beijos.