sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vamos dar uma voltinha?



Faz tempo que eu venho prometendo escrever sobre o lugar em que Mariana estuda em Amsterdam, mas termino sempre protelando. Pois bem, depois que tirei as fotos e criei vergonha na cara para postar, lá vai.

Só para situar, mesmo Maricota tendo a cidadania holandesa, como foi criada no Brasil e não falava holandês, o governo exige a sua frequência em uma das muitas escolas para crianças estrangeiras. Lá, a meninada aprende a falar o idioma holandês, tem aulas de matemática, artes, natação, esportes etc., porém o foco mesmo é no aprendizado da língua.

E eu acho isso perfeito! A escola em que Mariana está é bem bacana: frequentando-a desde novembro passado, a criatura já fala muito bem, aliás, se já falava pelos cotovelos, agora bilíngue... Mas voltando, de lá, nada tenho a reclamar: os professores são muito bons e atenciosos com nossa filha e conosco (não é regra, já vi outras crianças serem tratadas com rispidez e os pais, idem), nada que se compare com o dengo com que as professoras do Brasil tratam nossas crianças, mas isso é uma questão cultural e não dá pra ficar morrendo todo dia porque a "tia" daqui não amolega Mariana. Aliás, os professores se despedem das crianças todos os dias com um aperto de mão, acho bonitinho.

Além das atividades internas, Mariana já foi com a turminha dela à praia, museus, zoo, parques etc. Como ela gosta de ler, quase sempre chega em casa com livrinhos infantis que ganha das professoras (eu aproveito e leio tudo pra me desasnar no holandês, como diria a minha vó), enfim, tudo isso para dizer que sim, eu gosto da escola e vou sentir saudades quando Mariana sair de lá -- coisa que deve acontecer por volta de novembro ou um pouco antes. Sou extremamente grata a cada juf e ao meester de Mariana. No entanto, durante os quatro dias da semana em que Mariana estuda lá (na sexta, ela frequenta a escola regular aqui em Diemen), confesso que, muitas vezes, vou buscá-la amarrada, abusada e louca para que ela venha logo de vez para a escola aqui de Diemen.

O motivo? Vem comigo...









Eu sei que a questão é complexa, falar em discriminação aqui é meio que um tabu social, mas, me diga aí, olhando para a lente da verdade: você investiria seu rico dinheirinho em uma hipoteca de uma vida toda em um bairro desses? Então, estamos conversados, né, nego(a)?

Mas continue me seguindo:









Isso porque eu não fotografei as fraldas cagadas que encontrei nas calçadas, as cenas de baculejo (revistas policiais, em pernambuquês), mas já deu pra ter uma ideia da razão do meu abuso, né?

Com tudo isso, não estou querendo ser melhor do que ninguém: assim como essas pessoas, sou também uma imigrante, a diferença é que, desde que cheguei aqui, estou me esforçando ao máximo para me integrar, aprender a língua, abrir a cabeça para muitas coisas que, por mais que sejamos oriundos de uma cultura ocidental, nos causam estranhamentos.

E ainda digo mais: não saí do meu país, o qual, como todos nós sabemos, tem seus problemas de sujeira e falta de saneamento, buracos (alô, Recife!), gente mal-educada que joga lixo na rua etc., pra me enfiar numa pocilga, não, dá licença? E ainda ter de aguentar desaforo desse povo: um dia, no bonde, um marroquino não quis abrir passagem para mim e pra minha filha, mesmo depois de eu ter pedido educadamente. Ao invés, apontou para a saída de trás do bonde! Foi só o que deu pra ele: levou um baile, bem alto e em inglês -- ainda não tenho segurança suficiente para esculhambar em holandês, mas isso também é uma questão de tempo --, pra todo mundo ouvir e ele entender que eu não aceitei Allah como as negas dele.




9 comentários:

Simone Westerduin disse...

Kenia eu morei em um bairro igualzinho a esses logo que fui morar com Iwan, idos de 2009, e olha era MEDA as vezes voltando a noite sozinha do trabalho ou de qualquer outro lugar.

Não tenho preconceito não, mas você não acha que é muita coincidência alguns fatos?

beijos

Anônimo disse...

Realmente, quando se deixa o país de origem pelo menos se espera encontrar algo senão melhor mas pelo menos igual... E morar num lugar sujo assim não parece ser a melhor opção, mas logo logo chega o fim dessa etapa.
E Mariana também vai sentir falta das professoras e da escola que parece ser muito organizada.
E esse marroquino, heim?Mereceu o baile.rsrsrsrs

Bjos e []s

Ivette Góis

Anônimo disse...

como diz um amigo japones: tem, tem disso tambem ( em japones.
nei

Kenia Mello disse...

Simone, tem algumas mães de alunos da escola de Mariana em Amsterda, que são marroquinas, ótimas pessoas, educadas, alegres, existem pessoas e pessoas, claro. Mas o que me incomoda é que muitos deles, por conta da peste da religião, se acham superiores aos demais, se trancam em guetos e o resultado é aquele que a gente sabe: termina sobrando pra todos que querem viver aqui de forma integrada. Longa conversa essa, né? E nesse pouco tempo que estou aqui, tenho algumas histórias como a desse cara do bonde, daí junta tudo e eu vou me enfezando... :)
Beijos.

Ivette, não é isso mesmo? Fiquei com ódio do miserável, mas boa foi a cara dele de espanto diante da minha reação, acostumado que deve estar com a submissão das mulheres com as quais convive. Mas pra cima de mim, não, violão. :D
Beijos.

Pois é, Nei, nesse sentido, o mundo é uma grande aldeia...
Beijos.

Anônimo disse...

Oi Kênia.
Vai parecer estranho o que vou te contar.Mas,somos amigos de infância.Estudamos juntos lá no Instituto Santo Antônio.Não tenho muita vivência com Internet,recentemente,arrisquei o nome Kênia – Caruaru, como não recordava seu sobrenome,arrisquei abrir a opção “leite de cobra”. Nos primeiros relatos da sua infância, identifiquei-a. A casa comprida,a casa de trás, onde seu Belmiro, aquele senhor grisalho, franzino, de voz rouca,divertia-se arrumando seus tipos de metal, para prensá-los.Das últimas vezes que freqüentei sua casa, ele já não mais estava lá.Isso foi nos idos de 77. Fico triste por dona Lindinalva.
E Teresa(Teca), está bem?
Tristezas à parte,devo dizer que fiquei muito feliz em conhecer sua família. A Mariana é quase idêntica a você.Aliás, algumas fotos dela, me fazem pensar que são suas.O Paul me parece um cara superlegal.Minhas recomendações a ele,também.
Talvez você nem se lembre de mim, mas ao vê-los foi como encontrar um pedaço de minha própria família.Tenho uma foto onde você aparece ao fundo e é datada de 29/08/1971.Foi quando vi que nos conhecemos antes mesmo de entrar no jardim de infância .Aliás, é impressionante como os sentimentos parecem não envelhecer.Impressionante, também,como a vida proporciona encontros e desencontros pois moro em Recife desde 1999 e só agora consegui te encontrar na Holanda.Vê se pode!
Caso deseje maiores detalhes de quem sou ou fui,responda-me, pois são informações de caráter pessoal e não tenho o seu e-mail.
Aqui vai o meu e-mail:
halex21br@yahoo.com.br

Kenia Mello disse...

Nossa, eu que voltei no tempo, assim, tão de surpresa! Meu nome é curiosidade, hoje vou dormir com o ouvido na pia. :))

Rydi disse...

Concordo com vc, nós também somos imigrantes mas nos esforçamos o máximo para nos adaptarmos à essa cultura, agora esse povo oriundo de marrocos, turquia e etc são uma tristeza, claro que há excessões mas no geral são todos os mesmos. Também moro em bairro pra iniciantes, mas se o meu fosse assim acho que eu já teria pirado de vez, o pedaço que eu moro tem mais holândes com primeiro apartamento, casais ou idosos.

bjss

Kenia Mello disse...

Pois é, Rydi, moramos em Diemen, uma cidade de pouco mais de 24 mil habitantes, do ladinho de Amsterdam, onde a vida é tranquila, as ruas são limpas (pelo menos Diemen Centrum é...), completamente diferente do cenário do post. Nossa rua também é muito tranquila, basicamente composta por gente idosa e casais com filhos da idade da nossa. No nosso prédio, por exemplo, Mariana é a única criança, a maioria dos nossos vizinhos ou é idosa ou da nossa faixa etária, ou seja, quase idosos. kkkkkkkkkkk
Beijos.

Alexandre Luna disse...

Olha, essa "superpopulação" de imigrantes arábes na Holanda, dá muito pano pra manga. Mas é uma verdade em outros lugares, meu irmão morou em Londres, e a impáfia era bem similar ao comentado anteriormente. Você vai ao país de outra pessoa, e ainda mostra desprezo pela forma de viver do lugar? Muito pano pra manga mesmo.