sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Por detrás das tulipas e dos tamancos...



Antes de sair do Brasil, sempre ouvi dos amigos que moravam fora que uma das piores coisas do processo de viver no exterior, além da saudade da família, dos amigos e dos antigos costumes, claro, era a convivência com outros brasileiros porque, com poucas exceções, é cobra engolindo cobra, muita competitividade, muita falta de solidariedade etc.

No que me toca, ainda tenho muito pouco tempo aqui (seis meses) para falar sobre o assunto, porém como observar não paga imposto (ainda), tenho cá as minhas impressões.

A principal delas diz respeito à antiguidade em solo holandês. Isso mesmo, morar aqui por um determinado tempo, o suficiente para se ter o visto de cinco anos -- se tiver a cidadania holandesa, então, a coisa se agrava --, desencadeia um fenômeno curioso: existe algo em terras de Oranje que age sobre os genes da criatura e a torna mais holandesa do que os próprios holandeses! O ser conhece e sabe mais da vida na Nederlândia do que os próprios. Impressionante!

A ponto de as próprias holandesas se sentirem assim, sei lá, meio do Paraguai...

Dentre os principais sintomas dessa anomalia está a amnésia: a pessoa esquece completamente o quanto sofreu com o idioma, para conseguir o primeiro emprego, para dar conta das exigências do governo, enfim, esquece como chegou aqui...

Na cabecinha dela (ou pelo menos na imagem que ela tenta lhe vender...), a coisa é bem diferente:

Pois é, é muito sucesso, minha gente, vamos combinar.

De modo que ela, além de não se lembrar de nada do que passou, ainda esquece que, sim, o seu prazer de estar descobrindo as coisas aos poucos é genuíno e merece, no lugar de desdém, encorajamento.

Fico me perguntando o quê leva alguém a se transformar em algo assim. Muitas vezes o sofrimento, ao invés de transformar as pessoas em seres humanos melhores, faz com que elas se tornem mais mesquinhas, rancorosas e egoístas. Taí mais um clichê quebrado. É como se o progresso das demais as incomodassem, quer seja por medo de uma concorrência (muitas vezes imaginária) profissional e/ou pessoal, quer seja pela pura necessidade de se sentir superiores mesmo, tamanho deve ser o sentimento de inferioridade que carregam. Quem vai saber?

Claro que se estabelecer em um país estrangeiro com êxito é uma coisa muito importante e digna de admiração, ainda mais quando sabemos que precisamos lutar em dobro para conseguir todos os objetivos aos quais nos propomos. No entanto, grande parte desse brilho se perde justamente quando a falta de humildade se instala. E o mais melancólico nisso tudo é saber que essas pessoas terminam se transformando em um híbrido despatriado: por se acharem melhores do que os seus patrícios, jogam fora as suas origens, mal sabendo que, para os locais, por mais que elas se "integrem", serão sempre estrangeiras...




11 comentários:

Ivette Góis disse...

Incrível isso, filhas de amigas minhas que moraram fora por razão de estudo dizem a mesma coisa sobre competição entre brasileiros e em todos os casos, eram mulheres as envolvidas, por que será? Mas concordo contigo,essas pessoas se tornam mais egoístas, não é por conta das adversidades, elas já são assim mesmo. Mas no dia que levam um tombo... Ai ai, muito triste.

Bjos e []s

Ivette Góis

Nei kS disse...

Brasileiro tem vergonha de brasileiro no estrangeiro.
(Millôr)

Só não tem em casa senão é ágorafobia.
(Nei)

É tudo uma grande feira de vaidades, Kenia. Eu passei por isso, fiz isso com outras pessoas com menos estrangeirismo (oh!), me senti o melhor. Se eu negar, to mentindo. Tem dia que ne escondo na minha cara de japa e passo por japa, principamente quando tem um de nós falando alto no celular dentro de um supermercado, por exemplo. Ou enchendo a cara sentado no banquinho de idosos do mesmo mercado até a administração tirar o banquinho e pôr flores.

Kenia Mello disse...

Ah, Nei, ver conterrâneo fazendo barraco e/ou baixaria e se fazer de paisagem é coisa comum, todo mundo faz e eu não sou exceção. Agora, pessoas que você conhece e que em outras ocasiões (leia-se antes de você vir morar no mesmo país que a beleza) se mostraram de uma maneira e depois se tornam isso aí que eu descrevi é outra coisa completamente diferente.
Beijos.

Ivette, acredito que quando a coisa envolva trabalho e/ou estudo, a competitividade só aumenta.

Beijos.

Nei kS disse...

Ah, é isso. Tem que mandar tnc. Com mão e tudo.

Kenia Mello disse...

Eu nem, Nei, vai que a criatura gosta, daí quem está fazendo favor pra gente ruim sou eu. :)

Eve disse...

Qdo a gente chega, fica doido pra encontrar outros brasileiros. Aí vai vendo que nem todos sao pessoas que vc gostaria de ter como amigo. E aí, pior, as comparacoes começam.
Graças a Deus, ainda nao encontrei nenhum assim. Acho que pq a maioria dos que conheço, chegaram a mais ou menos o mesmo tempo que eu.
Bjs!

DILERMArtins disse...

É Kenia, como dizemos aqui no Rio Grande: "De onde menos se espera, surge um porco roncando..."
Mas toda regra tem suas exceções, tenho um filho morando no exterior, cujo melhor amigo por lá, é um cearense (meu filho é gaúcho).
Abração.

Simone Westerduin disse...

Kenia,lembra quando eu escrevi sobre a fulana que tudo dela era melhor e apesar de estar na Europa somente por 2 anos se chocava com tudo no Brasil? Realmente um fenomeno, quando a pessoa me diz que nunca se sentiu brasileira, nas verdade é europeia desde que nasceu, é aquilo de se olhar no espelho e ver algo totalmente diferente... olha é um fenomeno super curioso.

beijao

Rydi disse...

Oi Kenia,
Sim!!!!! existe muita brasileira assim aqui, nossa já tive o desprazer de cruzar com algumas e nunca mais! muitas vivem de aparência e fingem que levam uma vida maravilhosa quando na verdade só estão tentando máscarar a verdadeira realidade. Pior é quando existe a competitividade de quem fala melhor holândes pfffff!

abraços

Kenia Mello disse...

Eve, engraçado, meu caso foi um pouco diferente porque tenho vindo pra essas bandas há quase 10 anos, de modo que tenho amigos brasileiros que vivem aqui há quase duas décadas e vim basicamente com uma rede de apoio já feita. Isso não quer dizer que eu não esteja aberta a conhecer mais brasileiros, sabe? O caso é que, dentre essas pessoas que você julgava "amigas" existem casos que te surpreendem e isso me faz lembrar um ditado que a minha vó sempre dizia: você só sabe quem é uma pessoa quando come sal com ela. Por isso, ando com um olho no peixe e outro no gato... ;)
Beijos.

Claro, Diler, aqui tenho amigos de fé com quem sei que posso contar a qualquer momento, felizmente.
Abraço.

Simone, eu até acho bem normal a pessoa se identificar com o estilo de vida de um lugar e, por isso, ter uma adaptação mais rápida. Mas daí a negar o seu background é meio ridículo.
Beijos.

Rydi, por isso que eu sempre tenho muito comedimento ao falar das minhas experiências, não só aqui, mas na vida, em geral.
Beijos.

Dri Viaro disse...

saudades

bjs