Pois é, daqui a pouco a primavera sai de cena e começa o verão, com seus dias mais longos e suas noites curtas, como aprendemos na escola. No entanto, por aqui ainda desfrutamos da beleza das flores (cof cof cof -- e das alergias provocadas pelo pólen), do canto dos pássaros e do colorido fantástico que esta época traz


Sou assumidamente uma pessoa urbana. Apesar de ter nascido numa cidade do interior de Pernambuco (Caruaru, aquela da feira famosa, do melhor São João do Mundo, do Mestre Vitalino, o qual transformou a cidade no maior centro de arte figurativa da América Latina e... chega!), passei a maior parte da minha vida adulta em cidades de grande porte (Recife, Belém, Rio de Janeiro e São Paulo), então, estar morando numa cidade de 24 mil e poucos habitantes, cercada dos confortos da vida moderna, mas com uma proximidade muito grande da natureza é uma situação nova para mim.
Mas o problema é que sou realmente um bicho urbano, sabe como é? Habituada com barulho, muvuca, ônibus lotado, correria. E, sim, sou também uma criatura chata. Muito chata, às vezes. Então, estou tendo de me adaptar a algumas coisas nestes tempos de quase verão. Porque já estive aqui em dois outonos, três primaveras e um inverno. Verão, esse será o primeiro.
Meu primeiro calo está sendo a claridade, uma vez que tenho grande sensibilidade à luz e dormir num ambiente claro, nem pensar, não consigo. Botar um blecaute no quarto também nem pensar porque Paul tem agonia justamente com o contrário: dormir no escuro total. Equilibrismo em Cristo... Mas tudo bem, nosso horário de dormir, geralmente depois das 22h, resolve o problema. O danado é você se acostumar com o dia claro ainda sendo noite e ir desacelerando, se preparando pra dormir, senão no outro dia é aquela quebradeira, no entanto, sei que é questão de tempo para acostumar.
Então, voltando à beleza e à magia da primavera, temos acordado com o canto dos passarinhos, coisa mais linda e bucólica, especialmente se comparado com os sons que nos acordavam nos últimos anos em Recife: briga de bêbado, buzina, freadas etc. Nosso ex bairro é um dos mais barulhentos e movimentados da Veneza Brasileira, também conhecida como Hellcife.
E para completar toda essa beleza primaveril, também vamos dormir ao som dos passarinhos! Seria perfeito não fosse por um pequeno detalhe: no meio dos passarinhos nossos conhecidos, há um que possui desvio de personalidade: ele não se contenta com poucos acordes, não, minha gente, ele dá show. Faz floreios vocais, emenda uma melodia na outra, se acha o astro, o tenor, o cantor lírico!

No começo da primavera, cheguei a pensar que, com o tempo, ele arrumaria uma passarinha e seria feliz para sempre, aquela coisa do canto para atrair a fêmea, mas o quê? Nada! O bicho é exibido mesmo, gosta de fazer sucesso, já virou até motivo de piada aqui em casa. Mas de dia, porque de noite, adivinha quem está indo dormir com o ouvido na pia?

Definitivamente, sou um bicho urbano e chato... Só perco pro Pavarotti de penas...